Pelo fim da editoria de polícia

O jornalismo vive mudanças. Esta pode ser mais uma. Foto: Freepix

O jornalismo vive mudanças. Esta pode ser mais uma. Foto: Freepix

Em 1996, um crime chocou a opinião pública brasileira, o caso do Bar Bodega. Por “chocar a opinião pública”, leia-se a divulgação massiva nos meios de comunicação. Jornais, revistas, emissoras de rádio e TV noticiaram o fato com sensacionalismo e um nítido tom alarmista. Nas entrelinhas, o recado era claro: “sujou: a violência chegou à classe média”.

Para quem não lembra, o fato ocorreu em um badalado bar de São Paulo. Um grupo de assaltantes invadiu o local e, após rápido incidente, matou duas pessoas e feriu uma terceira. As vítimas eram pessoas da classe média, o que suscitou a enorme repercussão na mídia por semanas.

Em meio a tantas notícias, acusações, revelações e desmentidos, um pensamento não me saía da cabeça: todos os dias, dezenas (talvez centenas) de pessoas morrem em circunstâncias semelhantes na cidade de São Paulo. Por que nunca receberam o mesmo tratamento? Por que não buscam com o mesmo vigor os responsáveis por essas mortes? Por que a elas está destinado outro espaço, bem menos nobre no noticiário: a crônica policial.

O que é, como é, porque é

A cobertura policial está restrita a ouvir apenas um dos lados da notícia. O BO é a verdade absoluta

A cobertura policial está restrita a ouvir apenas um dos lados da notícia. O BO é a verdade absoluta

A editoria policial é um porto seguro para todo tipo de ocorrência violenta: assassinatos, roubos e furtos, estupros, agressões e estelionatos. Crimes de toda natureza se acumulam, como células cancerígenas, nas páginas de jornais ou em seguidos blocos de programas televisivos, devidamente ilustrados por cenas sangrentas. Títulos sensacionalistas e locutores histriônicos formam a cereja deste bolo tétrico.

Porque se dá tanta importância às notícias policiais? Porque o interesse pelo mórbido é uma forte característica de nós, seres humanos. Ao mesmo tempo em que crimes nos enojam e revoltam, também nos fascinam. O gosto de sangue está encravado no nosso inconsciente. Reduzimos a velocidade na estrada apenas para ver melhor um acidente no sentido contrário. Gritamos com troça a um potencial suicida no alto de um viaduto, clamando para que ele se jogue lá de cima.

Isto posto, não parece difícil saber por que empresas de comunicação investem tanto neste nicho: ele atrai audiência, é relativamente fácil de produzir e não exige grandes gastos. Em alguns destes veículos, as notícias não passam de uma mera descrição de boletins de ocorrência, candidamente coletados em um distrito policial.

Promiscuidade

E justamente aqui temos um dos maiores problemas, que transformam o noticiário policial em um Frankenstein jornalístico: a promiscuidade com um dos lados da notícia. A partir do momento em que tomamos por base apenas as informações de um boletim de ocorrência, aceitamos cegamente uma das versões do ocorrido. Deixamos de lado as demais, que podem trazer revelações importantes sobre o fato. Ao ter acesso livre a uma delegacia para recolher os BOs, o repórter automaticamente se vê limitado em seu campo de ação.

Se houver arbitrariedade policial, como poderia o repórter encontrar a verdade? E de que forma ele poderia interpelar os responsáveis, se eles são justamente os que lhe abastecem de informações, geralmente as únicas disponíveis? Não por acaso, policiais surgem sempre como heróis da narrativa, mesmo quando não o são.

Utilidade

Em uma editoria de Política, ficamos sabendo como se portam os governantes que elegemos. Na de Economia, nos informamos sobre a situação financeira do país e também aprendemos como e onde investir nosso dinheiro. Na de Esporte, ficamos sabendo detalhes das nossas modalidades preferidas. Nos cadernos culturais, nos informamos sobre os últimos filmes, discos e livros de nossos artistas preferidos, bem como conhecemos novos nomes dos quais possamos gostar. E a crônica policial?

Uma análise um pouco mais aprofundada das páginas policiais nos permite ver os efeitos dessas notícias sangrentas: em vez de instruir e informar a população, ele cria preconceitos: incute nas pessoas opiniões pré-concebidas sobre determinadas cidades e bairros. Ao concentrar o foco em ocorrências na periferia, cria terreno fértil para disseminar a opinião de que nessas regiões só existe traficantes, criminosos, vagabundos e indolentes. Não existe, para essas regiões, uma editoria de notícias mais amenas ou positivas para minimizar o dano.

A editoria de polícia tampouco serve como instrumento de cobrança das autoridades. Suas reportagens não orientam os governantes para a forma como devem ser investidos os recursos para a segurança pública. Elas apenas mostram crimes, de forma sortida e aleatória. Caótica, podemos dizer.

Medo e delírio

A forma como são noticiados os crimes dão uma lente de aumento à nossa percepção da violência

A forma como são noticiados os crimes dão uma lente de aumento à nossa percepção da violência

Desta forma, percebemos que a crônica policial, deliberadamente ou não, tem duas funções. Uma delas é instaurar a paranoia entre a população. Quantas vezes você foi a uma grande cidade como se estivesse indo para uma praça de guerra, apenas porque ouviu, viu ou leu muitas notícias de crimes ocorridos ali? Sem perceber, você acabou sendo contaminado pelo noticiário. O perigo sempre existe em uma grande cidade, mas estes programas colocam uma lente de aumento na percepção da violência.

A outra função das editorias policiais é exaltar, de forma cega e indiscriminada, a ação das forças de segurança. Não se vê isso em nenhum outro setor do funcionalismo público. Não há uma editoria voltada a noticiar vidas salvas por um médico, ou falar de jovens bem formados por professores.  Tampouco de engenheiros que fizeram grandes obras públicas.

Na força policial, assim como em qualquer outro setor da sociedade, há pessoas boas e más. Essa possibilidade não é sequer imaginada no noticiário de crimes. Ali, temos apenas a vítima, o criminoso e o herói. Esta editoria é hermética como poucas e praticamente não permite rupturas.

O fim da editoria

A única mudança realmente eficaz seria, simplesmente, acabar com as páginas policiais. Elas não acrescentam nenhuma informação realmente relevante para a sociedade, não nos ajudam a ser pessoas melhores ou mais preparadas para a vida. Tampouco nos trazem dados que permitam entender o funcionamento de nossa sociedade. Tudo o que traz é uma carga pesada de medo e ódio.

Nunca me esqueço do dia em que um programa de TV entrevistou uma mulher que passava os dias trancada em sua casa. As janelas e portas eram devidamente forradas por fortes grades e ela não saía para absolutamente nada. Quando precisava de produtos, serviços ou qualquer tipo de favor, pedia para que as pessoas fossem até sua residência. A matéria tinha tom de denúncia, como se o enclausuramento fosse provocado por uma escalada de violência no local onde vivia. Se fosse realizado um exercício de autocrítica, talvez o jornalista percebesse que na verdade o clima de paranoia fora desencadeado pela forma como a mídia apresenta a violência nas grandes cidades.

Evidentemente, há casos de crimes ou ocorrências violentas que exigem, sim, atenção do noticiário. Elas, no entanto, caberiam perfeitamente no noticiário de Cidades ou Cotidiano. Não precisam de um caderno especial para ganhar a luz do dia.

Para completar a defesa pelo fim da editoria: ela dá audiência, mas esta não se transforma em aumento na publicidade, porque são raras as empresas que querem ver seu nome vinculado a programas sensacionalistas ou violentos.

Sugerir o fim de uma editoria, qualquer uma, pode parecer descabido por vir justamente em um momento em que casos de demissões coletivas se multiplicam nas redações. Mas não se pode ignorar que o mercado jornalístico brasileiro passa por um processo de mutação profunda, com o surgimento de novas mídias e o fim de plataformas tradicionais. Essas mudanças são inevitáveis e sugerem uma nova forma de produzir e consumir a informação. Portanto, o momento é mais que propício para uma adequação na forma como classificamos a notícia.

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Mídia amplia faturamento e demissões

Mesmo com o aumento do volume publicitário, empresas do setor seguem realizando cortes de gastos. Profissionais de jornalismo são maiores vítimas

Empresas de jornalismo lucram cada vez mais, mas ampliasm demissão de jornalistas

Empresas de jornalismo lucram cada vez mais, mas ampliasm demissão de jornalistas

As empresas de comunicação do Brasil seguem uma curiosa tendência: quanto maior o faturamento, maior o número de demissões. É que se conclui ao analisar os números referentes ao setor em 2012.

Uma pesquisa realizada pelo Monitor Evolution, do Ibope Media, aponta que os investimentos publicitários cresceram 7% em 2012, na comparação com o ano anterior, atingindo R$ 94,9 bilhões.

De acordo com Dora Câmara, diretora regional Brasil do Ibope Media, o setor vive um momento de crescimento e consolidação. “O aumento registrado em 2012 ficou de acordo com a economia do país”.

Ainda de acordo com o levantamento, a TV aberta é a mídia que recebe o maior volume de publicidade. Apesar do crescimento de 11% nos investimentos, que passam de R$ 46,3 bilhões em 2011 para R$ 51,2 bilhões, a participação do meio é praticamente a mesma, passou de 53% para 54%. O meio internet, que também aumentou sua participação chegando a 7%, teve um crescimento de 21%, passando de R$ 5,3 bilhões para R$ 6,5 bilhões.

Passaralhos

Enquanto isso, o que se vê nas redações é um clima de terror. Tudo graças a um mítico animal, o passaralho.

Passaralho é uma palavra do jargão jornalístico que designa demissões em massa nas redações. A origem da expressão é imprecisa e uma série de versões têm sido publicadas, algumas com teor burlesco e com um humor ácido.

Infelizmente, não há espaço para o humor nas redações. Um levantamento do site Comunique-se aponta que mais de 1.200 jornalistas foram demitidos em 2012. O número foi engordado pelas 450 demissões da Rede TV e as 70 da Record, além do fechamento do Jornal da Tarde, pertencente ao Grupo Estado.

No entanto, todos os grandes veículos de comunicação realizaram demissões no ano passado. A maior parte dos veículos afirma que os passaralhos fazem parte de “reestruturações”, que incluem o surgimento de veículos online, como portais de notícias e sites de serviços. O problema é que esses novos veículos são criados com equipes extremamente enxutas. A tese da “reestruturação” é derrubada ao se constatar que não há uma migração para os meios online, apenas um número de contratações muito inferior às demissões.

Outro fator que mostra a crise vivida pelo profissional de comunicação é a precariedade dos empregos. Em São Paulo, os profissionais com registro na Carteira de Trabalho, pelo regime da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), são raros. A maioria absoluta das empresas de comunicação monta suas equipes com profissionais assalariados travestidos de “prestadores de serviços”. Estes atuam como pessoas jurídicas e emitem notas fiscais para receber pelo trabalho. A manobra representa, na prática, a sonegação de milhões de reais em encargos trabalhistas. Os jornalistas, por sua vez, perdem direito a benefícios como o 13º salário.

Herdeiros poderão ter acesso a e-mails de falecidos

Projeto do deputado federal Jorginho Mello (PSDB-SC) passou pela Comissão de Constituição e Justiça e agora segue direto para o Senado

Acesso a dados confidenciais permitirá acesso a trabalhos de pessoas já falecidas. Foto: Wilson Dias/ABr

Acesso a dados confidenciais permitirá acesso a trabalhos de pessoas já falecidas. Foto: Wilson Dias/ABr

O debate acalorado sobre o acesso a dados confidenciais na internet, especialmente em rede sociais, deverá se estender nos próximos meses a mais um tópico complexo. Tramita no Congresso Nacional um projeto que permite a herdeiros acessar dados confidenciais de pessoas falecidas.

O projeto, de autoria do deputado federal Jorginho Mello (PSDB-SC), foi apresentado em junho do ano passado. Trata-se de uma alteração do art. 1.788 da Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que trata da sucessão dos bens e contas digitais. “Serão transmitidos aos herdeiros todos os conteúdos de contas ou arquivos digitais de titularidade do autor da herança”, diz o texto.

Na prática, isso permite que o herdeiro de um grande empresário tenha acesso não só aos bens materiais do falecido, mas também às contas pessoais de e-mail e todo o tipo de informação que nele estiver armazenado.

O projeto é de natureza conclusiva, ou seja, segue diretamente para análise no Senado após ser apreciado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, sem ter passado por votação entre os deputados.

Em novembro, o projeto passou pelo crivo da CCJ, que votou pela “constitucionalidade, juridicidade e técnica legislativa”. O relator é o deputado Onofre Santo Agostini (PSD-SC).

Segundo Mello, a ideia de criar o projeto surgiu após a divulgação de uma matéria, nos Estados Unidos, sobre o portfólio de um fotógrafo, contido na internet. Embora a página permanecesse no ar, os herdeiros não tinham acesso ao material.

“Sou advogado e percebi que a legislação brasileira não tinha nada sobre isso”, explica. “O projeto vem no sentido de caso o falecido tenha um trabalho importante que esteja sendo realizado, este não finde com a morte de quem o tenha principiado”.

Mello rejeita a tese de que o projeto permitirá uma devassa na vida de falecidos. “Os casos que temos visto na justiça foram justamente para dar continuidade a alguns trabalhos”.

Críticas

Proposta de Mello recebe críticas de advogados. Foto: Gustavo Lima/ Agência Câmara

Proposta de Mello recebe críticas de advogados. Foto: Gustavo Lima/ Agência Câmara

Mesmo antes de entrar em vigor, a medida já gera polêmica. Advogados criticam o projeto, classificando-o como “violação de privacidade”.

“Devemos respeitar a intimidade e a privacidade da pessoa, mesmo falecida”, defende Rafael Fernandes Maciel, advogado especialista em Direito Digital. “Acessar o conteúdo, na forma como está previsto, pode gerar conflitos pessoais desnecessários”.

Maciel ressalta ainda que se deve respeitar eventual declaração de última vontade do falecido. “Que poderá ter sido feita inclusive quando cadastrou sua conta”, completa.

Como alternativa, o advogado defende a possibilidade de conceder ao herdeiro o direito de requisitar a extinção da conta. “Ele pode alterar sua qualificação para ‘in memorian’, por exemplo, como oferece o Facebook. São mudanças que previnam o uso indevido por terceiros”, afirma.

A polêmica deve se estender mesmo após a eventual aprovação do projeto. O momento é de conflito entre internautas e empresas como o Google e o Facebook, que têm acesso a dados confidenciais de usuários de suas redes sociais. Por outro lado, começam a se acumular na Justiça casos de famílias lutando para ampliar o acesso ao espólio de artistas falecidos. A mesa está posta para mais um debate no campo virtual.

Qual é o papel da Imprensa e o do jornalista?

Há pouco, li um texto do jornalista Leonardo Sakamoto, sobre o machismo e como nossos atos contribuem para sua continuidade em nossa sociedade, e tornei a me perguntar o que estamos fazendo de errado.

(O texto é este.)

A cada vez que me faço estas perguntas, me vêm respostas diferentes: com o mesmo cerne, mas mais ou menos completas e complexas.

Desta vez, a conversa citada acima me fez pensar que tudo começa errado. No curso superior de jornalismo, em uma das primeiras aulas aprendemos o que é notícia. E fixamos, em nossa mente, que a notícia é o que é novo, inédito. Não é notícia quando um cachorro morde o homem. Mas sim quando o homem morde o cachorro.

E, a partir desta premissa e deste pensamento que se fixa em nossas mentes, passamos a entender que só é notícia o que é ruim. Desvio de dinheiro público, crimes horrendos, improbidade política, más condutas e desvios de caráter.

Do outro lado desta medida maniqueísta, temos que boas iniciativas não são notícias. Portanto, não são dignos de nota projetos públicos bem-sucedidos, economia de recursos públicos, bons exemplos de políticos, boas atitudes e iniciativas que inibem e diminuem a prática de crimes, boas condutas e pessoas de caráter reto.

Agora, me pergunto. E estendo a você este questionamento. Por quê? Por que uma boa gestão pública da Saúde, que tem como consequência o maior e melhor atendimento de uma comunidade, não é notícia? Por que iniciativas de grupos independentes ou organizados para aumentar o acesso à cultura de comunidades isoladas e/ou excluídas socialmente não são dignas de nota?

Porque não é interessante ao sistema que assim o sejam. Como donos do poder e da mídia (muitas vezes, representadas pela mesma pessoa) vão lucrar com as boas notícias?

Tendo na manga um escândalo político, é fácil ameaçar, chantagear, achacar e, com isso, lucrar com a notícia. E o que é a mídia, senão empresas que lucram justamente com a venda de notícias? É a lógica do capital apenas.

Mas como lucrar noticiando uma boa ação de um ente público? Sabemos como tratar de desvio de dinheiro, peculato, nepotismo, improbidade administrativa. Mas como tratamos do que dá certo, do que funciona, do que é correto?

Todas estas perguntas me vieram à mente porque sempre tive comigo que, com o jornalismo, conseguiria ajudar a melhorar o mundo em que vivo. Percebi que não é fácil.

Mas chego agora à conclusão que isso nunca será possível se eu continuar seguindo a lógica do ganhar dinheiro com a notícia. Dentro de uma empresa de comunicação, não haverá muito a fazer.

Para diminuir o machismo (tema da coluna citada acima, do jornalista Leonardo Sakamoto), para estabelecer de uma vez por todas a igualdade entre o papel da mulher e o do homem em nossa sociedade, para dirimir preconceitos – de raça, extrato social e religião – precisamos mudar a maneira com que fabricamos a notícia.

Se é pelo exemplo que educamos, como nossas crianças estão sendo educadas? Nossa população só saberá ser solidária, justa e honesta em todas as formas possíveis de honestidade, quando estes forem seus exemplos.

Quando a honestidade for algo correto, quando o crime for errado e a boa ação for corrente. Se continuarmos noticiando coisas ruins e se nós, jornalistas e Imprensa, continuarmos mostrando maus exemplos, iniciativas duvidosas e atos irresponsáveis, vamos perpetrar tudo o que não queremos. E nossos filhos serão sim preconceituosos, racistas, intolerantes e violentos. Sinto muito, mas é o que serão.

Ou a nossa Imprensa muda – e isso depende de nós, a maior e mais importante parte desta pirâmide – ou adotaremos, muito em breve, os famosos lemas do Ministério da Verdade, do livro 1984 (o que inspirou o Big Brother, lembra?):

Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força.

ÉRICA FRANÇA

As mortes silenciosas do furacão Sandy

Mídia deu ampla cobertura aos mais de cem mortos nos Estados Unidos, mas praticamente ignorou a centena de vítimas do Caribe

O Furacão Sandy, no momento em que passava pelo Caribe. Foto: Nasa

O Furacão Sandy, no momento em que passava pelo Caribe. Foto: Nasa

Os últimos meses de 2012 trarão lembranças dolorosas para milhões de pessoas nos Estados Unidos e na América Central. A passagem do furacão Sandy matou mais de 250 pessoas e deixou dezenas de milhares de famílias desabrigadas entre outubro e novembro. No entanto, metade das mortes foi ofuscada pelos incidentes ocorridos em território norte-americano.

As tempestades são uma constante no norte do Caribe e no golfo do México no período entre junho e novembro. Vários deles surgem rapidamente causando destruição e transtornos por onde passam. Na maioria dos casos, as condições climáticas fazem com que eles ganhem mais força e passem à categoria de furacões. Eles se tornam então ainda mais devastadores, não raro provocando dezenas ou até mesmo centenas de mortes.

O furacão Sandy se destacou entre todos os demais, não só pela sua intensidade, mas também por causa de um curioso fenômeno. Ele já começava a perder força – caiu de categoria 2 para 1 – quando se aproximou da costa leste dos Estados Unidos. Ali, os ventos se combinaram a tempestades frias.

A união de um furacão – típico de verão – com uma tempestade de inverno transformou o Sandy em um monstrengo climático e por isso passou a ser apelidado de “Frankenstorm”. De repente, a tormenta ganhou proporções gigantescas e seus ventos se tornaram ainda mais forte do que antes.

A mudança assustou os meteorologistas em todo o mundo, assim como a população da Costa Leste norte-americana. Sandy partiu, com força total, rumo à superpopulosa cidade de Nova York.

EUA x Caribe

 

Nas cidades pobres de países como Cuba, a destruição foi ainda mais intensa

Nas cidades pobres de países como Cuba, a destruição foi ainda mais intensa. Foto: ONU

Talvez aqui resida o ponto crucial da forma como a imprensa brasileira – e mundial – cobriu a destruição causada pelo Sandy. Por se tratar de uma cidade gigantesca, com mais de dez milhões de habitantes, Nova York atraiu a atenção de todo o mundo. E, de fato, a cidade foi duramente atingida.

Antes de perder força, o furacão Sandy ainda causou destruição e mortes no Canadá. Quando enfim se extinguiu, havia deixado 110 mortos nos Estados Unidos e dezenas de bilhões em dólares em prejuízos. Jornais, emissoras de TVs e portais de todo o mundo deram ampla cobertura ao que ocorreu na região. Infelizmente, não teve a mesma preocupação para falar do rastro de destruição no Caribe.

Sandy foi responsável por ao menos 140 mortes no Haiti, Jamaica, Cuba, Bahamas e República Dominicana. De acordo com levantamento da Organização Pan-Americana da Saúde, a tempestade afetou mais de 4,5 milhões de pessoas.

Nos países atingidos, há relatos de danos em hospitais e escolas, que passaram a funcionar de forma precária. Estradas foram bloqueadas, tornando ainda mais difícil o acesso de equipes de resgate ou o envio de suprimentos às vítimas.

A situação mais drástica ocorreu no Haiti, onde mais de 50 pessoas morreram e outras 20 continuam desaparecidas. A tempestade resultou ainda no aumento no número de casos de cólera, que vem dizimando a população local desde a grande epidemia surgida em 2010.

Hoje, às vésperas de um novo ano, a cidade de Nova York se recuperou quase que totalmente da destruição causada pelo Sandy, graças à eficiência da administração municipal e nacional, além dos vastos recursos financeiros de que dispõe. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer da maioria dos países caribenhos.

A Jamaica sofre com a pobreza crônica, exacerbada pela violência. Cuba pena com graves problemas econômicos provocados pelo bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. O Haiti é um caso à parte. Não há crise que um dia não tenha se abatido sobre sua população, que sofre com todos os tipos de tragédias, sejam naturais ou provocadas pelo homem, desde o século XVI.

Todos estes países, de parcos recursos financeiros, ainda sofrem para reparar a destruição causada pelo Sandy e ainda têm de lidar com os efeitos colaterais da passagem do furacão. Será preciso esperar mais algumas semanas – ou meses – até que se recuperem a contento. Infelizmente, todo esse carma parece não ter sensibilizado a imprensa internacional da maneira que deveria.

Morre um gigante do jornalismo

Joelmir Beting morreu hoje, aos 75 anos – Foto: Reprodução/Facebook

Morreu na madrugada desta quinta-feira (29/11) o jornalista Joelmir Beting, aos 75 anos. No último domingo, ele sofreu um AVE (acidente vascular encefálico) no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde estava internado desde o último dia 22.

Melhor e mais conhecido analista econômico do país, Joelmir Beting é mais um dos grandes do jornalismo que se vai. Sua principal marca foi utilizar uma linguagem limpa e clara para falar dos anuviados caminhos da economia brasileira e mundial. Aboliu o terrível economês e passou a usar frases rápidas, simples e certeiras. Quando preciso, apelava para a rima e jogos de palavras.

Antes de se consagrar como jornalista econômico, enveredou-se pela crônica esportiva, onde acompanhou grandes momentos do futebol brasileiro e até protagonizou alguns causos, como o que originou a expressão “Gol de Placa”. Na ocasião, Pelé havia feito um de seus mais belos gols, driblando quase todo o time do Fluminense em pleno Maracanã, nos anos 60. Joelmir idealizou a confecção de uma placa, a ser colocada no estádio, para lembrar o feito. Tempos mais tardes, os cronistas passaram a chamar de Gol de Placa todo gol semelhante àquele de Pelé.

Palmeirense fanático, deixou o legado do jornalismo e do amor ao futebol à sua família, em que se destaca o também jornalista Mauro Beting, outro apreciador dos jogos de palavras.

Fica aqui uma rápida e singela homenagem a não somente um grande jornalista, mas a um profissional honesto e dedicado, preocupado em informar seu público de forma clara. O que, convenhamos, está em falta no jornalismo atual.

Brasil avança sobre mercado imobiliário dos EUA

Atraídos pelos preços em baixa, brasileiros compram cada vez mais imóveis em Nova York. Na Flórida, já estão entre os maiores compradores estrangeiros

Imóveis luxuosos são oferecidos a preços baixos em Miami, Orlando e Nova York

O mercado imobiliário norte-americano vive um novo quadro desde que explodiu a crise econômica em 2008. O setor, um dos mais afetados pela quebradeira dos bancos nos EUA e Europa, vem se mantendo aquecido graças à procura cada vez maior de estrangeiros por imóveis nas grandes cidades do país. Os brasileiros estão entre os mais ávidos consumidores.

Uma pesquisa divulgada em junho deste ano, pela Associação Nacional dos Corretores de Imóveis dos Estados Unidos (NAR, na sigla em inglês), apontou que os compradores estrangeiros gastaram US$ 82,5 bilhões entre março de 2011 e março deste ano. O valor representa ou 8,9% do total (US$ 928 bilhões). No período anterior, as vendas internacionais atingiram US$ 66,4 bilhões.

Com 3% das vendas internacionais, os brasileiros já estão na sexta colocação deste ranking, atrás somente dos compradores do Canadá, China, México, Índia e Reino Unido.

O estado da Flórida concentra a atenção dos brasileiros que se aventuram no mercado imobiliário norte-americano. Eles foram responsáveis por 12% de todos os imóveis vendidos a estrangeiros em Miami, no ano passado, sendo suplantado apenas pelos venezuelanos (17%). No entanto, os especialistas já apontam que o consumidor brasileiro ocupará a ponta do ranking no final deste ano.

Nova York aparece em segundo lugar quando o assunto é comprar imóveis. A cidade vem recebendo uma procura incessante e luxuosos apartamentos em bairros elegantes de Manhattan já começam a ser arrematados por brasileiros.

PREÇOS EM CONTA

A crise econômica de 2008 nos Estados Unidos culminou em uma onda de desemprego e de despejo em massa de trabalhadores sem condições de quitar suas caríssimas hipotecas. Pouco tempo foi necessário, a partir de então, para que milhares de imóveis em todo o país ficassem abandonados. A solução foi a queda contínua dos preços, que atraiu os compradores estrangeiros.

Mesmo com a ligeira melhora da situação econômica, os preços continuam baixos, inclusive em comparação com os imóveis no Brasil. O metro quadrado de um imóvel em uma área nobre de Miami custa em média US$ 5 mil. No Brasil, não é possível encontrar um equivalente a menos de US$ 10 mil o m2, enquanto no Rio de Janeiro chega a US$ 15 mil.

Os altíssimos juros brasileiros também são um ponto negativo da comparação. Enquanto nos EUA ele está em torno de 5,5% ao ano, por aqui o índice chega a 7%.

O corretor Frederico Ziotto, carioca que mora em Nova York há mais de 25 anos, aponta a redução da taxa de câmbio como um importante fator a impulsionar os brasileiros. “A compra de um apartamento tornou-se possível hoje graças ao fortalecimento do Real”.

Ele diz que a procura de imóveis na Grande Maçã é motivada sobretudo pela promessa de vida em uma cidade cosmopolita e bem estruturada. “Apesar de ser um investimento seguro, a procura é pela qualidade de vida que a cidade oferece – seguranca, cultura, infra-estrutura e acesso ao que existe de melhor em quase todos os setores”, afirma. “No Brasil, em muitos casos o dinheiro não proporciona todos esses benefícios”, completa.

NEGÓCIOS NO BRASIL

Corretoras criam sites em português para atrair o comprador brasileiro

A procura de brasileiros por casas, apartamentos e mansões é tão grande que várias companhias norte-americanas vieram ao Brasil em busca de clientes. Em agosto, a consultoria imobiliária Elite International Realty realizou um encontro de negócios em São Paulo e no Rio de Janeiro e obteve US$ 15 milhões em vendas. Animados com o resultado, anunciaram eventos trimestrais.

“Com os preços dos imóveis em alta no Brasil, o mercado imobiliário americano acaba se tornando uma boa oportunidade de negócio”, comenta o diretor presidente da Elite, o brasileiro Leo Ickowicz.

Ele diz que a demanda é tão grande que o mercado imobiliário norte-americano vem alterando sua forma de trabalho para se adaptar ao gosto do brasileiro. “As incorporadoras estão adotando o modelo “um apartamento por andar”, incomum nos Estados Unidos”.

Uma rápida pesquisa na internet possibilita encontrar todo tipo de oferta. Empresas norte-americanas sediadas no Brasil oferecem serviços especiais de atendimento ao cliente. Outras, ainda sem colocar os pés em território tupiniquim, colocam no ar detalhados sites em português. E, claro, brasileiros que trabalham nos Estados Unidos servem como trunfo para várias corretoras e incorporadoras.

COMO COMPRAR

Além do fortalecimento do real e a queda no preços dos imóveis, outro fator que anima os brasileiros a sair à caça de casas e apartamentos é a liberal legislação norte-americana, que facilita o fechamento de negócios. “Não há limites para alguém de outro país comprar casas nos Estados Unidos”, explica Leo Ickowicz.

É possível para um estrangeiro financiar imóveis nos EUA. Os empréstimos usualmente chegam a 70% do valor do imóvel, com prazos de até 30 anos e taxas fixas ou variáveis.

Os trâmites burocráticos são parecidos com os enfrentados no Brasil. É necessário pagar pela escritura e pela transferência do documento do imóvel. As despesas também são bem parecidas: condomínio, taxa de manutenção, seguro e um tributo equivalente ao IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano).

A maior parte dos imóveis são de alto padrão e o valor máximo pode chegar a US$ 10 milhões. No entanto, há alguns com preço extremamente tentador. Um exemplo é uma casa, em um luxuoso condomínio, localizado a apenas alguns quarteirões da Disney, em Orlando. Com três quartos e toda mobiliada, ela esta à venda por módicos US$ 140 mil. Em São Paulo, por exemplo, é quase impossível encontrar um imóvel bem localizado a este preço, mesmo que esteja vazio e tenha apenas dois dormitórios.

Brasil vive nova onda de imigração

Africanos, haitianos e até mesmo europeus buscam novas oportunidades no país. Governo concede residência permanente para 2 mil refugiados

Africanos e haitianos lideram lista de refugiados no país. Foto: L. F. Godinho/ Acnur

O Ministério da Justiça regularizou a situação de 2.000 angolanos e liberianos que vivem no país como refugiados. O decreto que transforma o refúgio em residência permanente foi publicado na edição desta sexta-feira (26/10) do Diário Oficial da União. Longe de ser um ato isolado, a iniciativa do governo descortina uma situação que vem se consolidando há alguns anos: o Brasil vive a sua segunda grande onda de imigração.

A primeira, como se sabe, teve início em meados do século XIX, atingiu seu ápice nos primeiros anos após a abolição da escravatura (decretada em 1888) e se estendeu até as primeiras décadas do século XX. Italianos, alemães, espanhóis, portugueses e japoneses rumaram em profusão às terras tupiniquins, instalando-se especialmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Sírio-libaneses, por sua vez, espalharam-se por todo o país.

Nesta nova leva, a maior parte dos imigrantes vem de outras plagas: especialmente África e Américas. O número de imigrantes chineses também é elevado, mas este é um fenômeno à parte, por se tratar de um país de população gigantesca e cujos cidadãos se espalham pelo mundo em busca de oportunidades.

IMIGRAÇÃO 2.0

Segundo o IBGE, desde 1872 (ano do primeiro censo no país) até 2000, cerca de 6 milhões de estrangeiros vieram morar no Brasil. Mais de quatro milhões – a grande maioria – chegaram no período entre 1884 e 1933.

Dados apurados no século XXI, se comparados com os listados acima, mostram a tendência da nova leva migratória. O Brasil começou a reverter a queda no número de imigrantes, que vinha ocorrendo desde os anos 50. Segundo o IBGE, em 2001, residiam no país 510 mil estrangeiros. Dez anos depois, este número saltou para 1,5 milhão. A proporção em relação à população total saltou de 0,3% para 0,79%. É o maior índice desde 1980, quando muitos dos imigrantes que chegaram no início do século ainda estavam vivos.

Outros números mostram que o processo de imigração é contínuo. O Censo 2010 apontou que o país contava com 286,5 mil imigrantes internacionais pelo critério de data-fixa, ou seja, pessoas que residiam no Brasil no período do recenseamento, mas viviam em outro país cinco anos antes. Estes números são 86,7% superiores aos do Censo 2000 (143,6 mil).

Evidentemente, estes levantamentos se referem a imigrantes regularizados, muitos com vistos de trabalho ou estudo. O número sobe ainda mais se incluirmos os refugiados ou os que aqui aportaram clandestinamente.

UM NOVO QUADRO

Três fatores podem ser apontados como desencadeadores desta nova onda migratória. O primeiro é o aprimoramento de uma política de imigração eficiente e humanizada, voltada especialmente para atendimento de refugiados. Este trabalho teve início no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), deslanchou com Lula (2003-2010) e vem sendo mantido na gestão Dilma Rousseff.

O aquecimento da economia nos últimos dez anos, que catapultou o país à condição de potência econômica, atraiu as atenções dos imigrantes. Esta atenção é ainda mais concentrada se levarmos em conta que outros países emergentes, como Índia e China, possuem mais de um bilhão de habitantes, o que desestimula grandes massas migratórias.

Por fim, o acirramento das políticas anti-imigração dos países desenvolvidos – somados à crise econômica que aflige estas nações desde 2008 – fez com que os imigrantes mudassem o foco, trocando EUA, Japão e Europa por países como o Brasil. A crise europeia, inclusive, tem atraídos os nativos do Velho Continente, muitos deles com a alta qualificação que aqui anda em falta.

REFUGIADOS

Governo já reconheceu situação de 4.656 refugiados. Foto: L. F. Godinho/ Acnur

O número de refugiados que aporta ao Brasil tem crescido exponencialmente nos últimos anos. Muitas destas pessoas fogem de conflitos armados, epidemias de fome e/ou doenças ou ainda de destruição causada por grandes fenômenos naturais.

Segundo os dados do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), presidido pelo Ministério da Justiça, 4.656 refugiados são reconhecidos pelo governo brasileiro. A maioria é de origem africana, sendo que os angolanos formam o maior grupo.

Os imigrantes de Angola, país de língua portuguesa, formam um grupo peculiar. Fugidos da guerra civil que assolou o país por 40 anos desde a independência, escolheram o Brasil pela facilidade da língua, entre outros aspectos. Muitos se adaptaram rapidamente e criaram raízes por aqui, inviabilizando o retorno mesmo após a pacificação do país de origem. A solução é a transformação do status de “refugiado” para “residente permanente”.

“O Conare entende que não cabem mais os motivos do refúgio, pois os conflitos que deram origem ao reconhecimento do refúgio não existem mais”, explica o presidente do Comitê e secretário Nacional de Justiça, Paulo Abrão.

Outro grupo que aparece com frequência nos relatos vem do Haiti. Convulsionado por crises políticas desde sua independência, o país teve seus problemas agravados por um intenso terremoto em 2010, que matou mais de 200 mil pessoas. Meses depois, uma violenta epidemia de cólera trouxe ainda mais morte a um país já devastado.

Desde o terremoto, foram protocoladas 2.150 solicitações de refúgio feitas por cidadãos haitianos. O governo federal concedeu ainda 418 vistos de residência permanente. No entanto, o número de imigrantes clandestinos é muito maior, chegando a diversas partes do país, sobretudo à região amazônica.

Atualmente, o Conare contabiliza 1.461 solicitações de refúgio pendentes de análise. A maior parte dos solicitantes vem da África (742), seguido da América do Sul (342) e da América Central (217). Em média, chegam, aproximadamente, 130 novas solicitações por mês para avaliação do Comitê.

“O Brasil é formado por imigrantes e sempre acolheu muito bem os estrangeiros. Não seria diferente com os refugiados, que vêm para cá por motivos de violações de direitos humanos”, completa Abrão.

Brasileiros devem aumentar em 14% gastos com brinquedos

Consumo irá superar marca de R$ 6 bilhões em 2012, segundo pesquisa do Ibope. Somente no Dia das Crianças, vendas subiram 7,7%

Venda de brinquedos depende cada vez menos das datas especiais. Foto: Agência Brasil

O aumento do consumo da população brasileira atinge não apenas os itens básicos de consumo – como alimentação, vestuário e gastos com saúde e educação – mas ganham corpo também nos setores de lazer e entretenimento. Um dos reflexos deste incremento está no aumento das vendas de brinquedos: dados do Pyxis Consumo, ferramenta de dimensionamento de mercado do Ibope Inteligência, mostram que os brasileiros devem gastar R$ 6,02 bilhões até o final do ano, um aumento de 14% em comparação com 2011.

O maior potencial de consumo é da classe B, que corresponde a 24,45% dos domicílios e deve responder por quase metade desses gastos (46,50%). No entanto, o crescimento este ano é embalado pelo aumento no poder aquisitivo da classe C, que responderá por 34,64% do total.

O Sudeste será responsável pela maior parte do consumo (53,29%), com estimativa de gasto de R$ 42,53 per capita ao ano. A segunda região do País que mais compra estes produtos é a região Sul, responsável por 17,33% do consumo, com gasto per capita maior do que no Sudeste, que é de R$ 44,50. O menor consumo está na região Norte, com apenas 5,80% do total e média de R$ 29,21 por pessoa.

Na análise por classe e por região do País, a classe B continua na frente em todas as regiões. No Sudeste, ela será responsável por gastos de R$ 1,65 bilhão. A classe C, também do Sudeste, aparece na sequência, com consumo estimado em R$ 1,02 bilhão. O menor gasto deve ser dos moradores do Centro-Oeste, pertencentes às classes D e E, de R$ 22,69 milhões.

DIA DAS CRIANÇAS

O otimismo do setor se consolida com o crescimento registrado na semana do Dia das Crianças. Segundo o Indicador Serasa Experian de Atividade do Comércio, as vendas realizadas entre os dias 5 e 11 de outubro cresceram 7,7% na comparação com igual período de 2011. No ano passado, o crescimento havia sido de 5,8% em relação a 2010.

As vendas realizadas no final de semana que antecedeu o Dia das Crianças tiveram uma elevação de 4,2% ante o final de semana equivalente de 2011 (07 a 09 de outubro).

O que chama a atenção, na análise destes dados, é ver que a data mais importante para a venda de brinquedos – o Dia das Crianças – registrou um crescimento nas vendas inferior à projeção para todo o ano. Desta forma, é possível concluir que as vendas de brinquedos apresentam resultados positivos durante todo o ano e dependem um pouco menos destas datas especiais.

“Bomba-relógio” ameaça bancos europeus

Instituições acumulam € 1,5 trilhão em créditos de liquidação duvidosa, que podem se tornar um problema grave a médio prazo

Ajuda do BCE desestimulou bancos a venderem seus créditos de liquidação duvidosa

O vendaval que tomou conta do mercado financeiro norte-americano em 2008, estopim da gigantesca crise econômica internacional, pode se repetir no Velho Mundo a médio prazo, graças às arriscadas estratégias dos bancos locais. Segundo a Pesquisa Global de Vendas de Dívidas 2012, elaborada pela KPMG Internacional, as instituições europeias acumulam € 1,5 trilhão em créditos de liquidação duvidosa, ou NPLs (Non-Performing Loans, na sigla em inglês).

Estes NPLs são, a rigor, operações financeiras de risco, com alta probabilidade de inadimplência ou que envolvem empresas em estado pré-falimentar. Em tese, os bancos deveriam buscar o quanto antes a negociação destes créditos, pois o acúmulo abundante pode causar uma quebradeira geral no sistema, a exemplo do que aconteceu nos Estados Unidos em 2008.

No entanto, desestimulados pelo baixo valor dos NPLs, os bancos tentam adiar ao máximo a venda, esperando momentos em que eles possam valer mais. E o fator que mais tem proporcionado o adiamento destas operações foi o aporte de mais de € 1 trilhão, em operações de refinanciamento de longo prazo, promovido pelo BCE (Banco Central Europeu) entre dezembro de 2011 e fevereiro deste ano.

BOMBA RELÓGIO

Nick Colman, diretor no Grupo de Soluções de Carteira na KMPG na Alemanha, endossa a tese. “Há uma visão geral de que o dinheiro barato do Banco Central Europeu reduziu a urgência na venda de ativos no curto prazo”.

Segundo Colman, têm sido registrados atrasos nas alienações de carteiras de hipotecas residenciais e de empréstimos de financiamento de projetos. “Também observamos muita atividade nas carteiras estressadas e de NPLs, que são caras de um ponto de vista de capital, tais como as relacionadas a imóveis comerciais, onde a fuga de capital é uma preocupação principal para o banco.”

O FMI (Fundo Monetário Internacional) indica que os bancos europeus precisam encolher os seus balanços em US$ 2,6 trilhões (€ 2,01 trilhões), 75% dos quais provavelmente virão da venda de ativos. Contudo, os recursos com prazo de três anos para pagamento do BCE têm sido usados, principalmente, para reforçar os balanços dos bancos europeus. Com números mais favoráveis, cai a pressão para vender os créditos de liquidação duvidosa.

ALÍVIO

Uma forma de desarmar esta bomba relógio seria, basicamente, se livrar deste montante de crédito potencialmente perigoso. Embora as operações não venham sendo realizadas, a expectativa é que o quadro mude no futuro.

“A pesquisa também levantou informações de compradores e vendedores no mercado global de vendas de dívidas sobre as suas atividades planejadas para o próximo ano”, explica Salvatore Milanese, sócio-líder da área de Retructuring da KPMG no Brasil. De acordo com a apuração, 56% dos compradores e vendedores esperam que os créditos de liquidação duvidosa (NPLs) de consumidores sejam a categoria de dívida mais ativamente negociada nos próximos 12 meses.

“O cenário de bancos vendendo carteiras muito maiores, de vários bilhões de euros, em operações de crédito de liquidação duvidosa apresentadas em pacotes incluindo plataformas de servicing e facilitadas com contratos de fluxo a termo se tornará cada vez mais comum”, explica Jonathan Hunt, diretor associado do Grupo de Soluções de Carteira da KPMG. “Enquanto a dívida do consumidor tem sido tradicionalmente a mais fácil de ser vendida, os bancos buscam cada vez mais vender categorias diversas de ativos”.

No entanto, os prognósticos não fazem alusão a um pequeno detalhe: se a oferta de NPLs crescer assustadoramente, os valores tenderão a cair na mesma proporção. O que os bancos farão para evitar prejuízos?