“Só critica o Bolsa Família quem nunca passou fome”, diz nordestino

Muito se falou do Bolsa Família durante todo o governo Lula. Opiniões diversas, de que o programa distribuía renda, ou de que era assistencialista. Fora as opiniões direitistas de que o programa “sustentava vagabundo”. Desculpe-me, detesto os termos, mas era o que se via e ouvia.

Li matérias bacanas sobre o programa neste tempo todo, claro. Mas não me lembro de ter encontrado depoimento bacana como o que ouvi semana passada, de um colega de trabalho. Achei válido colocá-lo aqui.

Quando ele me contava que era do sertão de Pernambuco, depois de eu ter comentado que queria conhecer a região por ser terra do meu avô paterno, perguntei-lhe qual o impacto do Bolsa Família na região. Perguntei se era verdade que as pessoas não queriam mais deixar sua terra e vir pra São Paulo, se a vida realmente tinha melhorado.

O meu colega aparenta ter uns 50 anos, é alto, robusto, usa óculos. Tem um aspecto muito sério, é aquele tipo com quem dá até certo medo puxar conversa. Mas, no momento em que lhe fiz a pergunta, seus olhos se encheram d´água.

“O Bolsa Família mudou tudo lá. Só critica o Bolsa Família quem nunca passou fome. Quando eu era criança, chegava da escola e, muitas vezes, tinha apenas feijão e rapadura para comer, quando tinha. O Bolsa Família não é esmola como muitos dizem. Para quem passa fome, não há esmola”, contou.

Os recursos do governo federal, que variam de R$ 32 a R$ 232 por família, movimentaram a economia local.

“Eu vim pra cá há mais de 30 anos e fiquei 12 sem voltar para casa. Eu não conseguia ver minha família passando necessidade. Hoje, quando eu vou pra lá, tem tudo pra mim. Tem até carro para eu ir do sertão até a cidade. Tem fartura de comida.”

Mesmo sem ser um militante do PT – aliás, o colega em questão trabalha para um vereador de outro partido – Marcelo (como vou chamá-lo) defende o ex-presidente Lula. “Já avisei o meu vereador que não pode falar mal do Lula. Acho que o PT também roubou, mas o Lula distribuiu riqueza.”

Do alto de sua sabedoria, me contou ainda que há décadas, encontrar água no sertão era uma tarefa difícil, árdua e cruel. O financiamento público dos oitos anos do governo Lula permitiu uma vida mais digna a muitos nordestinos. “Ele financiou a construção do poço artesiano para o pobre. Agora, as pessoas têm água em seu quintal.”

Bolsa Família
Programa de transferência de renda com condicionalidades, beneficia atualmente cerca de 12 milhões de famílias brasileiras em situação de pobreza e extrema pobreza.

A depender da renda familiar por pessoa (limitada a R$ 140), do número e da idade dos filhos, o valor do benefício recebido pela família pode variar entre R$ 32 a R$ 242.

O 4° Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio aponta queda da pobreza extrema de 12% em 2003 para 4,8% em 2008.

Valores
Vamos tomar como base uma família com filhos que receba o valor máximo do Bolsa Família, R$ 232. Imagine uma família sem renda nenhuma, no extremo nordeste do País. Sem água. Sem alimentação. Sem vizinhos para quem pedir alguma coisa para comer. E, se houver vizinhos, eles enfrentam as mesmas dificuldades.

Agora, esta família pode contar com R$ 232 para se alimentar. E vamos supor que estes recursos sejam tudo o que ela tem. Com a alimentação em dia, as crianças aproveitam a escola, conseguem estudar, não sentem fome. Sabe o que a família consegue comprar com cerca de R$ 232? Segue uma lista, com base em preços de mercado – de São Paulo, uma das cidades mais caras do mundo para se viver.

– 5 pacotes de arroz de 5 kg;
– 3 pacotes de feijão de 1kg;
– 3 pacotes de açúcar de 1kg;
– 1 pacote de sal;
– 3 litros de óleo;
– 4 pacotes de macarrão;
– 4 caixas de molho de tomate;
– 2 pacotes de café de 500 gramas;
– 1 pacote de farinho de trigo;
– 1 pacote de farinha de milho;
– 6 pacotes de leite em pó de 1kg;
– 1 pote de achocolatado em pó;
– 2 garrafas de refrigerante de 2L;
– 1 pote de margarina;
– 1 bandeja de danone;
– 1 vinagre;
– 4 latas de sardinha;
– 2 pacotes de papel higiênico (com 8 rolos);
– 1 recipiente de Cândida;
– 1 recipiente de desinfetante;
– 2 caixas de sabão em pó;
– 1 pacote de esponja de aço;
– 1 pacote de sabão em pedra;

Esta é uma lista montada muito aleatoriamente. Vocês conseguiram notar como com estes recursos uma família não passa fome? Ela continua em dificuldades, caso não conte com nenhuma outra renda. Não há hortaliças e frutas nesta compra, mas fome…esta inimiga não existirá mais.

ÉRICA FRANÇA

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1 comentário

  1. Um outro detalhe, que sempre comento, mas que vale colocar aqui para os leitores: quem vive nas grandes cidades não tem ideia de como pode ser difícil conseguir água e comida nos confins do Nordeste. Em São Paulo, você pede dinheiro e alguém já lhe oferece um lanche, um pacote de bolachas, um salgado. Se estiver com sede, pode ir ao bar mais próximo e pedir um copo d’água.

    No interior do Nordeste, a situação é desalentadora: a casa mais próxima fica a quilômetros e, se não for de alguém que está tão mal quanto você, é do coronel local, que deseja justamente que você emigre para os grandes centro. Assim, ele poderá adquirir sua terra a preço de rapadura.

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