As mortes silenciosas do furacão Sandy

Mídia deu ampla cobertura aos mais de cem mortos nos Estados Unidos, mas praticamente ignorou a centena de vítimas do Caribe

O Furacão Sandy, no momento em que passava pelo Caribe. Foto: Nasa

O Furacão Sandy, no momento em que passava pelo Caribe. Foto: Nasa

Os últimos meses de 2012 trarão lembranças dolorosas para milhões de pessoas nos Estados Unidos e na América Central. A passagem do furacão Sandy matou mais de 250 pessoas e deixou dezenas de milhares de famílias desabrigadas entre outubro e novembro. No entanto, metade das mortes foi ofuscada pelos incidentes ocorridos em território norte-americano.

As tempestades são uma constante no norte do Caribe e no golfo do México no período entre junho e novembro. Vários deles surgem rapidamente causando destruição e transtornos por onde passam. Na maioria dos casos, as condições climáticas fazem com que eles ganhem mais força e passem à categoria de furacões. Eles se tornam então ainda mais devastadores, não raro provocando dezenas ou até mesmo centenas de mortes.

O furacão Sandy se destacou entre todos os demais, não só pela sua intensidade, mas também por causa de um curioso fenômeno. Ele já começava a perder força – caiu de categoria 2 para 1 – quando se aproximou da costa leste dos Estados Unidos. Ali, os ventos se combinaram a tempestades frias.

A união de um furacão – típico de verão – com uma tempestade de inverno transformou o Sandy em um monstrengo climático e por isso passou a ser apelidado de “Frankenstorm”. De repente, a tormenta ganhou proporções gigantescas e seus ventos se tornaram ainda mais forte do que antes.

A mudança assustou os meteorologistas em todo o mundo, assim como a população da Costa Leste norte-americana. Sandy partiu, com força total, rumo à superpopulosa cidade de Nova York.

EUA x Caribe

 

Nas cidades pobres de países como Cuba, a destruição foi ainda mais intensa

Nas cidades pobres de países como Cuba, a destruição foi ainda mais intensa. Foto: ONU

Talvez aqui resida o ponto crucial da forma como a imprensa brasileira – e mundial – cobriu a destruição causada pelo Sandy. Por se tratar de uma cidade gigantesca, com mais de dez milhões de habitantes, Nova York atraiu a atenção de todo o mundo. E, de fato, a cidade foi duramente atingida.

Antes de perder força, o furacão Sandy ainda causou destruição e mortes no Canadá. Quando enfim se extinguiu, havia deixado 110 mortos nos Estados Unidos e dezenas de bilhões em dólares em prejuízos. Jornais, emissoras de TVs e portais de todo o mundo deram ampla cobertura ao que ocorreu na região. Infelizmente, não teve a mesma preocupação para falar do rastro de destruição no Caribe.

Sandy foi responsável por ao menos 140 mortes no Haiti, Jamaica, Cuba, Bahamas e República Dominicana. De acordo com levantamento da Organização Pan-Americana da Saúde, a tempestade afetou mais de 4,5 milhões de pessoas.

Nos países atingidos, há relatos de danos em hospitais e escolas, que passaram a funcionar de forma precária. Estradas foram bloqueadas, tornando ainda mais difícil o acesso de equipes de resgate ou o envio de suprimentos às vítimas.

A situação mais drástica ocorreu no Haiti, onde mais de 50 pessoas morreram e outras 20 continuam desaparecidas. A tempestade resultou ainda no aumento no número de casos de cólera, que vem dizimando a população local desde a grande epidemia surgida em 2010.

Hoje, às vésperas de um novo ano, a cidade de Nova York se recuperou quase que totalmente da destruição causada pelo Sandy, graças à eficiência da administração municipal e nacional, além dos vastos recursos financeiros de que dispõe. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer da maioria dos países caribenhos.

A Jamaica sofre com a pobreza crônica, exacerbada pela violência. Cuba pena com graves problemas econômicos provocados pelo bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. O Haiti é um caso à parte. Não há crise que um dia não tenha se abatido sobre sua população, que sofre com todos os tipos de tragédias, sejam naturais ou provocadas pelo homem, desde o século XVI.

Todos estes países, de parcos recursos financeiros, ainda sofrem para reparar a destruição causada pelo Sandy e ainda têm de lidar com os efeitos colaterais da passagem do furacão. Será preciso esperar mais algumas semanas – ou meses – até que se recuperem a contento. Infelizmente, todo esse carma parece não ter sensibilizado a imprensa internacional da maneira que deveria.

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