Qual é o papel da Imprensa e o do jornalista?

Há pouco, li um texto do jornalista Leonardo Sakamoto, sobre o machismo e como nossos atos contribuem para sua continuidade em nossa sociedade, e tornei a me perguntar o que estamos fazendo de errado.

(O texto é este.)

A cada vez que me faço estas perguntas, me vêm respostas diferentes: com o mesmo cerne, mas mais ou menos completas e complexas.

Desta vez, a conversa citada acima me fez pensar que tudo começa errado. No curso superior de jornalismo, em uma das primeiras aulas aprendemos o que é notícia. E fixamos, em nossa mente, que a notícia é o que é novo, inédito. Não é notícia quando um cachorro morde o homem. Mas sim quando o homem morde o cachorro.

E, a partir desta premissa e deste pensamento que se fixa em nossas mentes, passamos a entender que só é notícia o que é ruim. Desvio de dinheiro público, crimes horrendos, improbidade política, más condutas e desvios de caráter.

Do outro lado desta medida maniqueísta, temos que boas iniciativas não são notícias. Portanto, não são dignos de nota projetos públicos bem-sucedidos, economia de recursos públicos, bons exemplos de políticos, boas atitudes e iniciativas que inibem e diminuem a prática de crimes, boas condutas e pessoas de caráter reto.

Agora, me pergunto. E estendo a você este questionamento. Por quê? Por que uma boa gestão pública da Saúde, que tem como consequência o maior e melhor atendimento de uma comunidade, não é notícia? Por que iniciativas de grupos independentes ou organizados para aumentar o acesso à cultura de comunidades isoladas e/ou excluídas socialmente não são dignas de nota?

Porque não é interessante ao sistema que assim o sejam. Como donos do poder e da mídia (muitas vezes, representadas pela mesma pessoa) vão lucrar com as boas notícias?

Tendo na manga um escândalo político, é fácil ameaçar, chantagear, achacar e, com isso, lucrar com a notícia. E o que é a mídia, senão empresas que lucram justamente com a venda de notícias? É a lógica do capital apenas.

Mas como lucrar noticiando uma boa ação de um ente público? Sabemos como tratar de desvio de dinheiro, peculato, nepotismo, improbidade administrativa. Mas como tratamos do que dá certo, do que funciona, do que é correto?

Todas estas perguntas me vieram à mente porque sempre tive comigo que, com o jornalismo, conseguiria ajudar a melhorar o mundo em que vivo. Percebi que não é fácil.

Mas chego agora à conclusão que isso nunca será possível se eu continuar seguindo a lógica do ganhar dinheiro com a notícia. Dentro de uma empresa de comunicação, não haverá muito a fazer.

Para diminuir o machismo (tema da coluna citada acima, do jornalista Leonardo Sakamoto), para estabelecer de uma vez por todas a igualdade entre o papel da mulher e o do homem em nossa sociedade, para dirimir preconceitos – de raça, extrato social e religião – precisamos mudar a maneira com que fabricamos a notícia.

Se é pelo exemplo que educamos, como nossas crianças estão sendo educadas? Nossa população só saberá ser solidária, justa e honesta em todas as formas possíveis de honestidade, quando estes forem seus exemplos.

Quando a honestidade for algo correto, quando o crime for errado e a boa ação for corrente. Se continuarmos noticiando coisas ruins e se nós, jornalistas e Imprensa, continuarmos mostrando maus exemplos, iniciativas duvidosas e atos irresponsáveis, vamos perpetrar tudo o que não queremos. E nossos filhos serão sim preconceituosos, racistas, intolerantes e violentos. Sinto muito, mas é o que serão.

Ou a nossa Imprensa muda – e isso depende de nós, a maior e mais importante parte desta pirâmide – ou adotaremos, muito em breve, os famosos lemas do Ministério da Verdade, do livro 1984 (o que inspirou o Big Brother, lembra?):

Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força.

ÉRICA FRANÇA

11 de Setembro

A Nasa divulgou uma foto de Nova Iorque vista de cima, no dia 11 de setembro de 2001, quando as Torres Gêmeas foram atacadas pela rede terrorista Al-Qaeda.

É possível ver a fumaça das torres que caíram matando milhares de pessoas e deixando o mundo em choque. A Nasa divulgou a foto para relembrar os 11 anos da tragédia.

“Só critica o Bolsa Família quem nunca passou fome”, diz nordestino

Muito se falou do Bolsa Família durante todo o governo Lula. Opiniões diversas, de que o programa distribuía renda, ou de que era assistencialista. Fora as opiniões direitistas de que o programa “sustentava vagabundo”. Desculpe-me, detesto os termos, mas era o que se via e ouvia.

Li matérias bacanas sobre o programa neste tempo todo, claro. Mas não me lembro de ter encontrado depoimento bacana como o que ouvi semana passada, de um colega de trabalho. Achei válido colocá-lo aqui.

Quando ele me contava que era do sertão de Pernambuco, depois de eu ter comentado que queria conhecer a região por ser terra do meu avô paterno, perguntei-lhe qual o impacto do Bolsa Família na região. Perguntei se era verdade que as pessoas não queriam mais deixar sua terra e vir pra São Paulo, se a vida realmente tinha melhorado.

O meu colega aparenta ter uns 50 anos, é alto, robusto, usa óculos. Tem um aspecto muito sério, é aquele tipo com quem dá até certo medo puxar conversa. Mas, no momento em que lhe fiz a pergunta, seus olhos se encheram d´água.

“O Bolsa Família mudou tudo lá. Só critica o Bolsa Família quem nunca passou fome. Quando eu era criança, chegava da escola e, muitas vezes, tinha apenas feijão e rapadura para comer, quando tinha. O Bolsa Família não é esmola como muitos dizem. Para quem passa fome, não há esmola”, contou.

Os recursos do governo federal, que variam de R$ 32 a R$ 232 por família, movimentaram a economia local.

“Eu vim pra cá há mais de 30 anos e fiquei 12 sem voltar para casa. Eu não conseguia ver minha família passando necessidade. Hoje, quando eu vou pra lá, tem tudo pra mim. Tem até carro para eu ir do sertão até a cidade. Tem fartura de comida.”

Mesmo sem ser um militante do PT – aliás, o colega em questão trabalha para um vereador de outro partido – Marcelo (como vou chamá-lo) defende o ex-presidente Lula. “Já avisei o meu vereador que não pode falar mal do Lula. Acho que o PT também roubou, mas o Lula distribuiu riqueza.”

Do alto de sua sabedoria, me contou ainda que há décadas, encontrar água no sertão era uma tarefa difícil, árdua e cruel. O financiamento público dos oitos anos do governo Lula permitiu uma vida mais digna a muitos nordestinos. “Ele financiou a construção do poço artesiano para o pobre. Agora, as pessoas têm água em seu quintal.”

Bolsa Família
Programa de transferência de renda com condicionalidades, beneficia atualmente cerca de 12 milhões de famílias brasileiras em situação de pobreza e extrema pobreza.

A depender da renda familiar por pessoa (limitada a R$ 140), do número e da idade dos filhos, o valor do benefício recebido pela família pode variar entre R$ 32 a R$ 242.

O 4° Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio aponta queda da pobreza extrema de 12% em 2003 para 4,8% em 2008.

Valores
Vamos tomar como base uma família com filhos que receba o valor máximo do Bolsa Família, R$ 232. Imagine uma família sem renda nenhuma, no extremo nordeste do País. Sem água. Sem alimentação. Sem vizinhos para quem pedir alguma coisa para comer. E, se houver vizinhos, eles enfrentam as mesmas dificuldades.

Agora, esta família pode contar com R$ 232 para se alimentar. E vamos supor que estes recursos sejam tudo o que ela tem. Com a alimentação em dia, as crianças aproveitam a escola, conseguem estudar, não sentem fome. Sabe o que a família consegue comprar com cerca de R$ 232? Segue uma lista, com base em preços de mercado – de São Paulo, uma das cidades mais caras do mundo para se viver.

– 5 pacotes de arroz de 5 kg;
– 3 pacotes de feijão de 1kg;
– 3 pacotes de açúcar de 1kg;
– 1 pacote de sal;
– 3 litros de óleo;
– 4 pacotes de macarrão;
– 4 caixas de molho de tomate;
– 2 pacotes de café de 500 gramas;
– 1 pacote de farinho de trigo;
– 1 pacote de farinha de milho;
– 6 pacotes de leite em pó de 1kg;
– 1 pote de achocolatado em pó;
– 2 garrafas de refrigerante de 2L;
– 1 pote de margarina;
– 1 bandeja de danone;
– 1 vinagre;
– 4 latas de sardinha;
– 2 pacotes de papel higiênico (com 8 rolos);
– 1 recipiente de Cândida;
– 1 recipiente de desinfetante;
– 2 caixas de sabão em pó;
– 1 pacote de esponja de aço;
– 1 pacote de sabão em pedra;

Esta é uma lista montada muito aleatoriamente. Vocês conseguiram notar como com estes recursos uma família não passa fome? Ela continua em dificuldades, caso não conte com nenhuma outra renda. Não há hortaliças e frutas nesta compra, mas fome…esta inimiga não existirá mais.

ÉRICA FRANÇA

O que poderia ser feito com o seu dinheiro que foi desviado

Você tem ideia do quanto poderia ser feito com o dinheiro que escorre pelos ralos da corrupção? O Brasil é eternamente o País do Futuro. Mas com a situação atual, de economia estável, atração de investimentos e iminência de grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, o Brasil é o País do presente. E, na verdade, com toda sua riqueza, acredito que sempre o tenha sido.

Então qual a razão para continuarmos no grupo dos países subdesenvolvidos, de terceiro mundo ou emergentes, como queira chamar? Há uma resposta que alguns diriam simplista a esta pergunta. Mas, a meu ver, são dois os problemas do País: falta de prioridade em educação e corrupção (ou a falta de punição a esta prática).

Primeiramente, não haverá avanços consistentes se não houver investimentos maciços em educação, se este setor não for prioridade para todos os governos – municipais, estaduais e federal. Além disso, se não houver punição para a corrupção no nosso País, pouca coisa irá mudar.

Os recursos públicos, provenientes das riquezas do país, de pagamentos de impostos por pessoas físicas e empresas, escorrem como areia pelos dedos da corrupção.

Não conhecemos todos os escândalos e esquemas. Temos notícia daqueles que interessam aos donos da grande mídia, aos detentores do oligopólio da comunicação no País. Mas provavelmente a máquina da corrupção move mais milhões do que supõe nossa vã fonte de informação.

Para se ter uma pequenina ideia do quanto nós cidadãos perdemos com o dinheiro que se esvai nos canos da corrupção para o esgoto da imoralidade, segue um apanhado de investimentos dos governos estadual e federal, citados em seus respectivos sites (www.sp.gov.br, www.brasil.gov.br). O número de obras e programas é grande, mas cabe dentro da estimativa de valor desviado pelo esquema de corrupção do Ministério dos Transportes, segundo auditoria do Controle Geral da União (CGU).

Com os R$ 682 milhões que se esvaíram dos cofres por conta do esquema de fraude no Ministério dos Transportes, poderíamos ter investido em:

Cultura
– Reforma do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo – R$ 7,6 milhões (troca de instalações elétricas, hidráulicas e de esgoto e reforma de duas salas de espetáculos);

– Construção de unidade da Fábrica da Cultura, no Itaim Paulista – R$ 12, 5 milhões (6,8 mil metros quadrados, atenderá em média 8 mil jovens por mês, com cursos e workshops de artes plásticas, teatro, circo, dança, música, cinema e história em quadrinhos).

Habitação
– Construção de 4.828 unidades habitacionais em São Bernardo do Campo e urbanização de mais 1.763 domicílios na região. R$ 120 milhões.

Saúde
– Pesquisa, desenvolvimento e inovação na Saúde. R$ 100 milhões ao ano (foi o investimento feito nos últimos 4 anos).

Infra-estrutura
– Coleta e tratamento de esgoto. Construção de 6 reservatórios para armazenar 9 mil litros de água tratada, mais 3 estações de bombeamento, mais 2 estações elevatórias no município de São José dos Campos. R$ 16,8 milhões.

Educação
– Construção de 3 novos blocos na Faculdade de Tecnologia de Jales. R$ 5 milhões.
– Construção de uma Escola Técnica do Estado (Etec) no município de Santa Fé do Sul. R$ 1,5 milhão.

Infra-estrutura para Copa do Mundo
– Construção de novo estádio em Natal, para sediar a Copa. R$ 396,5 milhões.

Fazendo tudo isso, ainda nos sobrariam R$ 22,1 milhões, que poderiam ser utilizados em mais moradias populares, mais escolas técnicas, mais investimentos em Saúde e Pesquisa, mais infra-estrutura para os municípios ou segurança.

Há corrupção em todo lugar do mundo, mas no Brasil ela tem se tornado institucionalizada. Quando há rigor, a pena para a corrupção é a demissão ou afastamento do cargo. Não basta. E também não basta sabermos de tudo isso e ficarmos apenas com críticas vazias e conversas de bar. É preciso informação, conscientização e ação.

Já sabemos o que é preciso para termos mais escolas, segurança, saúde de melhor qualidade. Estamos dispostos a brigar por isso e exigir mudanças?

ÉRICA FRANÇA