Pelo fim da editoria de polícia

O jornalismo vive mudanças. Esta pode ser mais uma. Foto: Freepix

O jornalismo vive mudanças. Esta pode ser mais uma. Foto: Freepix

Em 1996, um crime chocou a opinião pública brasileira, o caso do Bar Bodega. Por “chocar a opinião pública”, leia-se a divulgação massiva nos meios de comunicação. Jornais, revistas, emissoras de rádio e TV noticiaram o fato com sensacionalismo e um nítido tom alarmista. Nas entrelinhas, o recado era claro: “sujou: a violência chegou à classe média”.

Para quem não lembra, o fato ocorreu em um badalado bar de São Paulo. Um grupo de assaltantes invadiu o local e, após rápido incidente, matou duas pessoas e feriu uma terceira. As vítimas eram pessoas da classe média, o que suscitou a enorme repercussão na mídia por semanas.

Em meio a tantas notícias, acusações, revelações e desmentidos, um pensamento não me saía da cabeça: todos os dias, dezenas (talvez centenas) de pessoas morrem em circunstâncias semelhantes na cidade de São Paulo. Por que nunca receberam o mesmo tratamento? Por que não buscam com o mesmo vigor os responsáveis por essas mortes? Por que a elas está destinado outro espaço, bem menos nobre no noticiário: a crônica policial.

O que é, como é, porque é

A cobertura policial está restrita a ouvir apenas um dos lados da notícia. O BO é a verdade absoluta

A cobertura policial está restrita a ouvir apenas um dos lados da notícia. O BO é a verdade absoluta

A editoria policial é um porto seguro para todo tipo de ocorrência violenta: assassinatos, roubos e furtos, estupros, agressões e estelionatos. Crimes de toda natureza se acumulam, como células cancerígenas, nas páginas de jornais ou em seguidos blocos de programas televisivos, devidamente ilustrados por cenas sangrentas. Títulos sensacionalistas e locutores histriônicos formam a cereja deste bolo tétrico.

Porque se dá tanta importância às notícias policiais? Porque o interesse pelo mórbido é uma forte característica de nós, seres humanos. Ao mesmo tempo em que crimes nos enojam e revoltam, também nos fascinam. O gosto de sangue está encravado no nosso inconsciente. Reduzimos a velocidade na estrada apenas para ver melhor um acidente no sentido contrário. Gritamos com troça a um potencial suicida no alto de um viaduto, clamando para que ele se jogue lá de cima.

Isto posto, não parece difícil saber por que empresas de comunicação investem tanto neste nicho: ele atrai audiência, é relativamente fácil de produzir e não exige grandes gastos. Em alguns destes veículos, as notícias não passam de uma mera descrição de boletins de ocorrência, candidamente coletados em um distrito policial.

Promiscuidade

E justamente aqui temos um dos maiores problemas, que transformam o noticiário policial em um Frankenstein jornalístico: a promiscuidade com um dos lados da notícia. A partir do momento em que tomamos por base apenas as informações de um boletim de ocorrência, aceitamos cegamente uma das versões do ocorrido. Deixamos de lado as demais, que podem trazer revelações importantes sobre o fato. Ao ter acesso livre a uma delegacia para recolher os BOs, o repórter automaticamente se vê limitado em seu campo de ação.

Se houver arbitrariedade policial, como poderia o repórter encontrar a verdade? E de que forma ele poderia interpelar os responsáveis, se eles são justamente os que lhe abastecem de informações, geralmente as únicas disponíveis? Não por acaso, policiais surgem sempre como heróis da narrativa, mesmo quando não o são.

Utilidade

Em uma editoria de Política, ficamos sabendo como se portam os governantes que elegemos. Na de Economia, nos informamos sobre a situação financeira do país e também aprendemos como e onde investir nosso dinheiro. Na de Esporte, ficamos sabendo detalhes das nossas modalidades preferidas. Nos cadernos culturais, nos informamos sobre os últimos filmes, discos e livros de nossos artistas preferidos, bem como conhecemos novos nomes dos quais possamos gostar. E a crônica policial?

Uma análise um pouco mais aprofundada das páginas policiais nos permite ver os efeitos dessas notícias sangrentas: em vez de instruir e informar a população, ele cria preconceitos: incute nas pessoas opiniões pré-concebidas sobre determinadas cidades e bairros. Ao concentrar o foco em ocorrências na periferia, cria terreno fértil para disseminar a opinião de que nessas regiões só existe traficantes, criminosos, vagabundos e indolentes. Não existe, para essas regiões, uma editoria de notícias mais amenas ou positivas para minimizar o dano.

A editoria de polícia tampouco serve como instrumento de cobrança das autoridades. Suas reportagens não orientam os governantes para a forma como devem ser investidos os recursos para a segurança pública. Elas apenas mostram crimes, de forma sortida e aleatória. Caótica, podemos dizer.

Medo e delírio

A forma como são noticiados os crimes dão uma lente de aumento à nossa percepção da violência

A forma como são noticiados os crimes dão uma lente de aumento à nossa percepção da violência

Desta forma, percebemos que a crônica policial, deliberadamente ou não, tem duas funções. Uma delas é instaurar a paranoia entre a população. Quantas vezes você foi a uma grande cidade como se estivesse indo para uma praça de guerra, apenas porque ouviu, viu ou leu muitas notícias de crimes ocorridos ali? Sem perceber, você acabou sendo contaminado pelo noticiário. O perigo sempre existe em uma grande cidade, mas estes programas colocam uma lente de aumento na percepção da violência.

A outra função das editorias policiais é exaltar, de forma cega e indiscriminada, a ação das forças de segurança. Não se vê isso em nenhum outro setor do funcionalismo público. Não há uma editoria voltada a noticiar vidas salvas por um médico, ou falar de jovens bem formados por professores.  Tampouco de engenheiros que fizeram grandes obras públicas.

Na força policial, assim como em qualquer outro setor da sociedade, há pessoas boas e más. Essa possibilidade não é sequer imaginada no noticiário de crimes. Ali, temos apenas a vítima, o criminoso e o herói. Esta editoria é hermética como poucas e praticamente não permite rupturas.

O fim da editoria

A única mudança realmente eficaz seria, simplesmente, acabar com as páginas policiais. Elas não acrescentam nenhuma informação realmente relevante para a sociedade, não nos ajudam a ser pessoas melhores ou mais preparadas para a vida. Tampouco nos trazem dados que permitam entender o funcionamento de nossa sociedade. Tudo o que traz é uma carga pesada de medo e ódio.

Nunca me esqueço do dia em que um programa de TV entrevistou uma mulher que passava os dias trancada em sua casa. As janelas e portas eram devidamente forradas por fortes grades e ela não saía para absolutamente nada. Quando precisava de produtos, serviços ou qualquer tipo de favor, pedia para que as pessoas fossem até sua residência. A matéria tinha tom de denúncia, como se o enclausuramento fosse provocado por uma escalada de violência no local onde vivia. Se fosse realizado um exercício de autocrítica, talvez o jornalista percebesse que na verdade o clima de paranoia fora desencadeado pela forma como a mídia apresenta a violência nas grandes cidades.

Evidentemente, há casos de crimes ou ocorrências violentas que exigem, sim, atenção do noticiário. Elas, no entanto, caberiam perfeitamente no noticiário de Cidades ou Cotidiano. Não precisam de um caderno especial para ganhar a luz do dia.

Para completar a defesa pelo fim da editoria: ela dá audiência, mas esta não se transforma em aumento na publicidade, porque são raras as empresas que querem ver seu nome vinculado a programas sensacionalistas ou violentos.

Sugerir o fim de uma editoria, qualquer uma, pode parecer descabido por vir justamente em um momento em que casos de demissões coletivas se multiplicam nas redações. Mas não se pode ignorar que o mercado jornalístico brasileiro passa por um processo de mutação profunda, com o surgimento de novas mídias e o fim de plataformas tradicionais. Essas mudanças são inevitáveis e sugerem uma nova forma de produzir e consumir a informação. Portanto, o momento é mais que propício para uma adequação na forma como classificamos a notícia.

As mortes silenciosas do furacão Sandy

Mídia deu ampla cobertura aos mais de cem mortos nos Estados Unidos, mas praticamente ignorou a centena de vítimas do Caribe

O Furacão Sandy, no momento em que passava pelo Caribe. Foto: Nasa

O Furacão Sandy, no momento em que passava pelo Caribe. Foto: Nasa

Os últimos meses de 2012 trarão lembranças dolorosas para milhões de pessoas nos Estados Unidos e na América Central. A passagem do furacão Sandy matou mais de 250 pessoas e deixou dezenas de milhares de famílias desabrigadas entre outubro e novembro. No entanto, metade das mortes foi ofuscada pelos incidentes ocorridos em território norte-americano.

As tempestades são uma constante no norte do Caribe e no golfo do México no período entre junho e novembro. Vários deles surgem rapidamente causando destruição e transtornos por onde passam. Na maioria dos casos, as condições climáticas fazem com que eles ganhem mais força e passem à categoria de furacões. Eles se tornam então ainda mais devastadores, não raro provocando dezenas ou até mesmo centenas de mortes.

O furacão Sandy se destacou entre todos os demais, não só pela sua intensidade, mas também por causa de um curioso fenômeno. Ele já começava a perder força – caiu de categoria 2 para 1 – quando se aproximou da costa leste dos Estados Unidos. Ali, os ventos se combinaram a tempestades frias.

A união de um furacão – típico de verão – com uma tempestade de inverno transformou o Sandy em um monstrengo climático e por isso passou a ser apelidado de “Frankenstorm”. De repente, a tormenta ganhou proporções gigantescas e seus ventos se tornaram ainda mais forte do que antes.

A mudança assustou os meteorologistas em todo o mundo, assim como a população da Costa Leste norte-americana. Sandy partiu, com força total, rumo à superpopulosa cidade de Nova York.

EUA x Caribe

 

Nas cidades pobres de países como Cuba, a destruição foi ainda mais intensa

Nas cidades pobres de países como Cuba, a destruição foi ainda mais intensa. Foto: ONU

Talvez aqui resida o ponto crucial da forma como a imprensa brasileira – e mundial – cobriu a destruição causada pelo Sandy. Por se tratar de uma cidade gigantesca, com mais de dez milhões de habitantes, Nova York atraiu a atenção de todo o mundo. E, de fato, a cidade foi duramente atingida.

Antes de perder força, o furacão Sandy ainda causou destruição e mortes no Canadá. Quando enfim se extinguiu, havia deixado 110 mortos nos Estados Unidos e dezenas de bilhões em dólares em prejuízos. Jornais, emissoras de TVs e portais de todo o mundo deram ampla cobertura ao que ocorreu na região. Infelizmente, não teve a mesma preocupação para falar do rastro de destruição no Caribe.

Sandy foi responsável por ao menos 140 mortes no Haiti, Jamaica, Cuba, Bahamas e República Dominicana. De acordo com levantamento da Organização Pan-Americana da Saúde, a tempestade afetou mais de 4,5 milhões de pessoas.

Nos países atingidos, há relatos de danos em hospitais e escolas, que passaram a funcionar de forma precária. Estradas foram bloqueadas, tornando ainda mais difícil o acesso de equipes de resgate ou o envio de suprimentos às vítimas.

A situação mais drástica ocorreu no Haiti, onde mais de 50 pessoas morreram e outras 20 continuam desaparecidas. A tempestade resultou ainda no aumento no número de casos de cólera, que vem dizimando a população local desde a grande epidemia surgida em 2010.

Hoje, às vésperas de um novo ano, a cidade de Nova York se recuperou quase que totalmente da destruição causada pelo Sandy, graças à eficiência da administração municipal e nacional, além dos vastos recursos financeiros de que dispõe. Infelizmente, o mesmo não se pode dizer da maioria dos países caribenhos.

A Jamaica sofre com a pobreza crônica, exacerbada pela violência. Cuba pena com graves problemas econômicos provocados pelo bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. O Haiti é um caso à parte. Não há crise que um dia não tenha se abatido sobre sua população, que sofre com todos os tipos de tragédias, sejam naturais ou provocadas pelo homem, desde o século XVI.

Todos estes países, de parcos recursos financeiros, ainda sofrem para reparar a destruição causada pelo Sandy e ainda têm de lidar com os efeitos colaterais da passagem do furacão. Será preciso esperar mais algumas semanas – ou meses – até que se recuperem a contento. Infelizmente, todo esse carma parece não ter sensibilizado a imprensa internacional da maneira que deveria.