Pelo fim da editoria de polícia

O jornalismo vive mudanças. Esta pode ser mais uma. Foto: Freepix

O jornalismo vive mudanças. Esta pode ser mais uma. Foto: Freepix

Em 1996, um crime chocou a opinião pública brasileira, o caso do Bar Bodega. Por “chocar a opinião pública”, leia-se a divulgação massiva nos meios de comunicação. Jornais, revistas, emissoras de rádio e TV noticiaram o fato com sensacionalismo e um nítido tom alarmista. Nas entrelinhas, o recado era claro: “sujou: a violência chegou à classe média”.

Para quem não lembra, o fato ocorreu em um badalado bar de São Paulo. Um grupo de assaltantes invadiu o local e, após rápido incidente, matou duas pessoas e feriu uma terceira. As vítimas eram pessoas da classe média, o que suscitou a enorme repercussão na mídia por semanas.

Em meio a tantas notícias, acusações, revelações e desmentidos, um pensamento não me saía da cabeça: todos os dias, dezenas (talvez centenas) de pessoas morrem em circunstâncias semelhantes na cidade de São Paulo. Por que nunca receberam o mesmo tratamento? Por que não buscam com o mesmo vigor os responsáveis por essas mortes? Por que a elas está destinado outro espaço, bem menos nobre no noticiário: a crônica policial.

O que é, como é, porque é

A cobertura policial está restrita a ouvir apenas um dos lados da notícia. O BO é a verdade absoluta

A cobertura policial está restrita a ouvir apenas um dos lados da notícia. O BO é a verdade absoluta

A editoria policial é um porto seguro para todo tipo de ocorrência violenta: assassinatos, roubos e furtos, estupros, agressões e estelionatos. Crimes de toda natureza se acumulam, como células cancerígenas, nas páginas de jornais ou em seguidos blocos de programas televisivos, devidamente ilustrados por cenas sangrentas. Títulos sensacionalistas e locutores histriônicos formam a cereja deste bolo tétrico.

Porque se dá tanta importância às notícias policiais? Porque o interesse pelo mórbido é uma forte característica de nós, seres humanos. Ao mesmo tempo em que crimes nos enojam e revoltam, também nos fascinam. O gosto de sangue está encravado no nosso inconsciente. Reduzimos a velocidade na estrada apenas para ver melhor um acidente no sentido contrário. Gritamos com troça a um potencial suicida no alto de um viaduto, clamando para que ele se jogue lá de cima.

Isto posto, não parece difícil saber por que empresas de comunicação investem tanto neste nicho: ele atrai audiência, é relativamente fácil de produzir e não exige grandes gastos. Em alguns destes veículos, as notícias não passam de uma mera descrição de boletins de ocorrência, candidamente coletados em um distrito policial.

Promiscuidade

E justamente aqui temos um dos maiores problemas, que transformam o noticiário policial em um Frankenstein jornalístico: a promiscuidade com um dos lados da notícia. A partir do momento em que tomamos por base apenas as informações de um boletim de ocorrência, aceitamos cegamente uma das versões do ocorrido. Deixamos de lado as demais, que podem trazer revelações importantes sobre o fato. Ao ter acesso livre a uma delegacia para recolher os BOs, o repórter automaticamente se vê limitado em seu campo de ação.

Se houver arbitrariedade policial, como poderia o repórter encontrar a verdade? E de que forma ele poderia interpelar os responsáveis, se eles são justamente os que lhe abastecem de informações, geralmente as únicas disponíveis? Não por acaso, policiais surgem sempre como heróis da narrativa, mesmo quando não o são.

Utilidade

Em uma editoria de Política, ficamos sabendo como se portam os governantes que elegemos. Na de Economia, nos informamos sobre a situação financeira do país e também aprendemos como e onde investir nosso dinheiro. Na de Esporte, ficamos sabendo detalhes das nossas modalidades preferidas. Nos cadernos culturais, nos informamos sobre os últimos filmes, discos e livros de nossos artistas preferidos, bem como conhecemos novos nomes dos quais possamos gostar. E a crônica policial?

Uma análise um pouco mais aprofundada das páginas policiais nos permite ver os efeitos dessas notícias sangrentas: em vez de instruir e informar a população, ele cria preconceitos: incute nas pessoas opiniões pré-concebidas sobre determinadas cidades e bairros. Ao concentrar o foco em ocorrências na periferia, cria terreno fértil para disseminar a opinião de que nessas regiões só existe traficantes, criminosos, vagabundos e indolentes. Não existe, para essas regiões, uma editoria de notícias mais amenas ou positivas para minimizar o dano.

A editoria de polícia tampouco serve como instrumento de cobrança das autoridades. Suas reportagens não orientam os governantes para a forma como devem ser investidos os recursos para a segurança pública. Elas apenas mostram crimes, de forma sortida e aleatória. Caótica, podemos dizer.

Medo e delírio

A forma como são noticiados os crimes dão uma lente de aumento à nossa percepção da violência

A forma como são noticiados os crimes dão uma lente de aumento à nossa percepção da violência

Desta forma, percebemos que a crônica policial, deliberadamente ou não, tem duas funções. Uma delas é instaurar a paranoia entre a população. Quantas vezes você foi a uma grande cidade como se estivesse indo para uma praça de guerra, apenas porque ouviu, viu ou leu muitas notícias de crimes ocorridos ali? Sem perceber, você acabou sendo contaminado pelo noticiário. O perigo sempre existe em uma grande cidade, mas estes programas colocam uma lente de aumento na percepção da violência.

A outra função das editorias policiais é exaltar, de forma cega e indiscriminada, a ação das forças de segurança. Não se vê isso em nenhum outro setor do funcionalismo público. Não há uma editoria voltada a noticiar vidas salvas por um médico, ou falar de jovens bem formados por professores.  Tampouco de engenheiros que fizeram grandes obras públicas.

Na força policial, assim como em qualquer outro setor da sociedade, há pessoas boas e más. Essa possibilidade não é sequer imaginada no noticiário de crimes. Ali, temos apenas a vítima, o criminoso e o herói. Esta editoria é hermética como poucas e praticamente não permite rupturas.

O fim da editoria

A única mudança realmente eficaz seria, simplesmente, acabar com as páginas policiais. Elas não acrescentam nenhuma informação realmente relevante para a sociedade, não nos ajudam a ser pessoas melhores ou mais preparadas para a vida. Tampouco nos trazem dados que permitam entender o funcionamento de nossa sociedade. Tudo o que traz é uma carga pesada de medo e ódio.

Nunca me esqueço do dia em que um programa de TV entrevistou uma mulher que passava os dias trancada em sua casa. As janelas e portas eram devidamente forradas por fortes grades e ela não saía para absolutamente nada. Quando precisava de produtos, serviços ou qualquer tipo de favor, pedia para que as pessoas fossem até sua residência. A matéria tinha tom de denúncia, como se o enclausuramento fosse provocado por uma escalada de violência no local onde vivia. Se fosse realizado um exercício de autocrítica, talvez o jornalista percebesse que na verdade o clima de paranoia fora desencadeado pela forma como a mídia apresenta a violência nas grandes cidades.

Evidentemente, há casos de crimes ou ocorrências violentas que exigem, sim, atenção do noticiário. Elas, no entanto, caberiam perfeitamente no noticiário de Cidades ou Cotidiano. Não precisam de um caderno especial para ganhar a luz do dia.

Para completar a defesa pelo fim da editoria: ela dá audiência, mas esta não se transforma em aumento na publicidade, porque são raras as empresas que querem ver seu nome vinculado a programas sensacionalistas ou violentos.

Sugerir o fim de uma editoria, qualquer uma, pode parecer descabido por vir justamente em um momento em que casos de demissões coletivas se multiplicam nas redações. Mas não se pode ignorar que o mercado jornalístico brasileiro passa por um processo de mutação profunda, com o surgimento de novas mídias e o fim de plataformas tradicionais. Essas mudanças são inevitáveis e sugerem uma nova forma de produzir e consumir a informação. Portanto, o momento é mais que propício para uma adequação na forma como classificamos a notícia.

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Herdeiros poderão ter acesso a e-mails de falecidos

Projeto do deputado federal Jorginho Mello (PSDB-SC) passou pela Comissão de Constituição e Justiça e agora segue direto para o Senado

Acesso a dados confidenciais permitirá acesso a trabalhos de pessoas já falecidas. Foto: Wilson Dias/ABr

Acesso a dados confidenciais permitirá acesso a trabalhos de pessoas já falecidas. Foto: Wilson Dias/ABr

O debate acalorado sobre o acesso a dados confidenciais na internet, especialmente em rede sociais, deverá se estender nos próximos meses a mais um tópico complexo. Tramita no Congresso Nacional um projeto que permite a herdeiros acessar dados confidenciais de pessoas falecidas.

O projeto, de autoria do deputado federal Jorginho Mello (PSDB-SC), foi apresentado em junho do ano passado. Trata-se de uma alteração do art. 1.788 da Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002, que trata da sucessão dos bens e contas digitais. “Serão transmitidos aos herdeiros todos os conteúdos de contas ou arquivos digitais de titularidade do autor da herança”, diz o texto.

Na prática, isso permite que o herdeiro de um grande empresário tenha acesso não só aos bens materiais do falecido, mas também às contas pessoais de e-mail e todo o tipo de informação que nele estiver armazenado.

O projeto é de natureza conclusiva, ou seja, segue diretamente para análise no Senado após ser apreciado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, sem ter passado por votação entre os deputados.

Em novembro, o projeto passou pelo crivo da CCJ, que votou pela “constitucionalidade, juridicidade e técnica legislativa”. O relator é o deputado Onofre Santo Agostini (PSD-SC).

Segundo Mello, a ideia de criar o projeto surgiu após a divulgação de uma matéria, nos Estados Unidos, sobre o portfólio de um fotógrafo, contido na internet. Embora a página permanecesse no ar, os herdeiros não tinham acesso ao material.

“Sou advogado e percebi que a legislação brasileira não tinha nada sobre isso”, explica. “O projeto vem no sentido de caso o falecido tenha um trabalho importante que esteja sendo realizado, este não finde com a morte de quem o tenha principiado”.

Mello rejeita a tese de que o projeto permitirá uma devassa na vida de falecidos. “Os casos que temos visto na justiça foram justamente para dar continuidade a alguns trabalhos”.

Críticas

Proposta de Mello recebe críticas de advogados. Foto: Gustavo Lima/ Agência Câmara

Proposta de Mello recebe críticas de advogados. Foto: Gustavo Lima/ Agência Câmara

Mesmo antes de entrar em vigor, a medida já gera polêmica. Advogados criticam o projeto, classificando-o como “violação de privacidade”.

“Devemos respeitar a intimidade e a privacidade da pessoa, mesmo falecida”, defende Rafael Fernandes Maciel, advogado especialista em Direito Digital. “Acessar o conteúdo, na forma como está previsto, pode gerar conflitos pessoais desnecessários”.

Maciel ressalta ainda que se deve respeitar eventual declaração de última vontade do falecido. “Que poderá ter sido feita inclusive quando cadastrou sua conta”, completa.

Como alternativa, o advogado defende a possibilidade de conceder ao herdeiro o direito de requisitar a extinção da conta. “Ele pode alterar sua qualificação para ‘in memorian’, por exemplo, como oferece o Facebook. São mudanças que previnam o uso indevido por terceiros”, afirma.

A polêmica deve se estender mesmo após a eventual aprovação do projeto. O momento é de conflito entre internautas e empresas como o Google e o Facebook, que têm acesso a dados confidenciais de usuários de suas redes sociais. Por outro lado, começam a se acumular na Justiça casos de famílias lutando para ampliar o acesso ao espólio de artistas falecidos. A mesa está posta para mais um debate no campo virtual.

Brasil vive nova onda de imigração

Africanos, haitianos e até mesmo europeus buscam novas oportunidades no país. Governo concede residência permanente para 2 mil refugiados

Africanos e haitianos lideram lista de refugiados no país. Foto: L. F. Godinho/ Acnur

O Ministério da Justiça regularizou a situação de 2.000 angolanos e liberianos que vivem no país como refugiados. O decreto que transforma o refúgio em residência permanente foi publicado na edição desta sexta-feira (26/10) do Diário Oficial da União. Longe de ser um ato isolado, a iniciativa do governo descortina uma situação que vem se consolidando há alguns anos: o Brasil vive a sua segunda grande onda de imigração.

A primeira, como se sabe, teve início em meados do século XIX, atingiu seu ápice nos primeiros anos após a abolição da escravatura (decretada em 1888) e se estendeu até as primeiras décadas do século XX. Italianos, alemães, espanhóis, portugueses e japoneses rumaram em profusão às terras tupiniquins, instalando-se especialmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Sírio-libaneses, por sua vez, espalharam-se por todo o país.

Nesta nova leva, a maior parte dos imigrantes vem de outras plagas: especialmente África e Américas. O número de imigrantes chineses também é elevado, mas este é um fenômeno à parte, por se tratar de um país de população gigantesca e cujos cidadãos se espalham pelo mundo em busca de oportunidades.

IMIGRAÇÃO 2.0

Segundo o IBGE, desde 1872 (ano do primeiro censo no país) até 2000, cerca de 6 milhões de estrangeiros vieram morar no Brasil. Mais de quatro milhões – a grande maioria – chegaram no período entre 1884 e 1933.

Dados apurados no século XXI, se comparados com os listados acima, mostram a tendência da nova leva migratória. O Brasil começou a reverter a queda no número de imigrantes, que vinha ocorrendo desde os anos 50. Segundo o IBGE, em 2001, residiam no país 510 mil estrangeiros. Dez anos depois, este número saltou para 1,5 milhão. A proporção em relação à população total saltou de 0,3% para 0,79%. É o maior índice desde 1980, quando muitos dos imigrantes que chegaram no início do século ainda estavam vivos.

Outros números mostram que o processo de imigração é contínuo. O Censo 2010 apontou que o país contava com 286,5 mil imigrantes internacionais pelo critério de data-fixa, ou seja, pessoas que residiam no Brasil no período do recenseamento, mas viviam em outro país cinco anos antes. Estes números são 86,7% superiores aos do Censo 2000 (143,6 mil).

Evidentemente, estes levantamentos se referem a imigrantes regularizados, muitos com vistos de trabalho ou estudo. O número sobe ainda mais se incluirmos os refugiados ou os que aqui aportaram clandestinamente.

UM NOVO QUADRO

Três fatores podem ser apontados como desencadeadores desta nova onda migratória. O primeiro é o aprimoramento de uma política de imigração eficiente e humanizada, voltada especialmente para atendimento de refugiados. Este trabalho teve início no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), deslanchou com Lula (2003-2010) e vem sendo mantido na gestão Dilma Rousseff.

O aquecimento da economia nos últimos dez anos, que catapultou o país à condição de potência econômica, atraiu as atenções dos imigrantes. Esta atenção é ainda mais concentrada se levarmos em conta que outros países emergentes, como Índia e China, possuem mais de um bilhão de habitantes, o que desestimula grandes massas migratórias.

Por fim, o acirramento das políticas anti-imigração dos países desenvolvidos – somados à crise econômica que aflige estas nações desde 2008 – fez com que os imigrantes mudassem o foco, trocando EUA, Japão e Europa por países como o Brasil. A crise europeia, inclusive, tem atraídos os nativos do Velho Continente, muitos deles com a alta qualificação que aqui anda em falta.

REFUGIADOS

Governo já reconheceu situação de 4.656 refugiados. Foto: L. F. Godinho/ Acnur

O número de refugiados que aporta ao Brasil tem crescido exponencialmente nos últimos anos. Muitas destas pessoas fogem de conflitos armados, epidemias de fome e/ou doenças ou ainda de destruição causada por grandes fenômenos naturais.

Segundo os dados do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), presidido pelo Ministério da Justiça, 4.656 refugiados são reconhecidos pelo governo brasileiro. A maioria é de origem africana, sendo que os angolanos formam o maior grupo.

Os imigrantes de Angola, país de língua portuguesa, formam um grupo peculiar. Fugidos da guerra civil que assolou o país por 40 anos desde a independência, escolheram o Brasil pela facilidade da língua, entre outros aspectos. Muitos se adaptaram rapidamente e criaram raízes por aqui, inviabilizando o retorno mesmo após a pacificação do país de origem. A solução é a transformação do status de “refugiado” para “residente permanente”.

“O Conare entende que não cabem mais os motivos do refúgio, pois os conflitos que deram origem ao reconhecimento do refúgio não existem mais”, explica o presidente do Comitê e secretário Nacional de Justiça, Paulo Abrão.

Outro grupo que aparece com frequência nos relatos vem do Haiti. Convulsionado por crises políticas desde sua independência, o país teve seus problemas agravados por um intenso terremoto em 2010, que matou mais de 200 mil pessoas. Meses depois, uma violenta epidemia de cólera trouxe ainda mais morte a um país já devastado.

Desde o terremoto, foram protocoladas 2.150 solicitações de refúgio feitas por cidadãos haitianos. O governo federal concedeu ainda 418 vistos de residência permanente. No entanto, o número de imigrantes clandestinos é muito maior, chegando a diversas partes do país, sobretudo à região amazônica.

Atualmente, o Conare contabiliza 1.461 solicitações de refúgio pendentes de análise. A maior parte dos solicitantes vem da África (742), seguido da América do Sul (342) e da América Central (217). Em média, chegam, aproximadamente, 130 novas solicitações por mês para avaliação do Comitê.

“O Brasil é formado por imigrantes e sempre acolheu muito bem os estrangeiros. Não seria diferente com os refugiados, que vêm para cá por motivos de violações de direitos humanos”, completa Abrão.

OAB e Defensoria Pública em pé de guerra

O que você faria se fosse acusado de um crime, ou se tornasse alvo de um processo? Procuraria um advogado para lhe defender, certo? Mas e se você não tivesse condições financeiras para isso? A resposta para esta pergunta, que até pode parecer simples, tem se tornado cada vez mais complexa, especialmente no Estado de São Paulo. Tudo por causa de uma intensa batalha entre a Defensoria Pública e a seção paulista da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que envolve até mesmo o governador Geraldo Alckmin. Em jogo: um convênio de quase R$ 280 milhões anuais.

A Defensoria Pública é um organismo autônomo, que tem como função oferecer assistência jurídica gratuita para os cidadãos que não têm condições de obter um advogado. A existência e a regulamentação deste órgão estão descritos da Constituição de 1988, mas demorou a se institucionalizar no Brasil. Em São Paulo, por exemplo, ele foi criado apenas em 2006.

Um órgão de tal importância, evidentemente, exige tempo e muito trabalho, além de investimentos vultosos, para que possa funcionar a contento. Hoje, ela sobre com uma estrutura incipiente, incapaz de atender todo o rico e exigente Estado.

A solução encontrada a curto prazo foi contratar advogados credenciados pela OAB-SP para realizar os serviços onde a defensoria não consegue chegar, seja pela falta de postos, seja pelo excesso de trabalho. Pois é exatamente neste este o cerne da discussão.

BRIGA PELOS RECURSOS
A Defensoria de São Paulo faz o pagamento aos advogados mediante a comprovação de que atuaram nos casos solicitados. Os profissionais enviam uma média mensal de 50 mil pedidos de honorários.

O volume de recursos movimentado neste esforço para atender à população carente não é desprezível. São cerca de R$ 23 milhões mensais – ou quase R$ 280 milhões por ano, em média.

Os desentendimentos começaram a surgir, em 2008, por causa da discordância em relação aos valores praticados. A OAB propôs um reajuste na tabela dos honorários, mas a Defensoria não acatou, alegando que o índice sugerido estava acima da inflação medida pelo IPC, da Fipe.

Seguiu-se a partir de então uma briga que foi parar nos tribunais. A Defensoria Pública alega que tem direito a firmar convênio com outros órgãos, além da OAB, que obviamente discorda.

DECISÃO JUDICIAL
Ainda em 2008, a OAB obteve uma vitória na Justiça. Uma liminar proferida em julho, pela 13ª Vara Cível Federal, manteve a vigência compulsória do convênio.

Esta decisão teve valor até o dia 19 de dezembro, quando a Justiça Federal revogou a liminar, que na prática permite que a Defensoria firme convênio com outras entidades ou contrate diretamente os advogados. Dois dias depois, a OAB-SP e a Defensoria paulista renovaram o convênio por um prazo de 90 dias.

RÉPRESÁLIA DA OAB
Enquanto o convênio provisório está em vigor, a OAB realiza uma manobra agressiva: retirar da Defensoria Pública o poder de nomear advogados para atender ao cidadão pobre. A Ordem quer apoio para que esta atribuição seja concedida diretamente ao governo estadual, por meio da Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania.

A ação política para que esta transferência aconteça está a todo vapor. Um projeto foi encaminhado à Assembleia Legislativa, transferindo os poderes da Defensoria para a Secretaria de Justiça. A PLC 65/2011 é de autoria do deputado Campos Machado, presidente estadual e secretário-geral nacional do PTB. Mesmo partido, aliás, do presidente da OAB-SP, Luiz Flávio Borges D’Urso, que pretende se lançar candidato à prefeitura de São Paulo.

O projeto recebeu parecer favorável das comissões de Constituição e Justiça e Finanças e Orçamento. O texto está pronto para entrar na Ordem do Dia e ser votado em plenário.

O caminho para a aprovação vem sendo solidamente pavimentado. Câmaras Municipais de todo o Estado têm enviado, ao Palácio dos Bandeirantes, moções de apoio à proposta. A decisão final caberá justamente ao governador Geraldo Alckmin, que tem o poder de sanção ou veto caso a PLC 65/2011 seja vitoriosa.

“Só critica o Bolsa Família quem nunca passou fome”, diz nordestino

Muito se falou do Bolsa Família durante todo o governo Lula. Opiniões diversas, de que o programa distribuía renda, ou de que era assistencialista. Fora as opiniões direitistas de que o programa “sustentava vagabundo”. Desculpe-me, detesto os termos, mas era o que se via e ouvia.

Li matérias bacanas sobre o programa neste tempo todo, claro. Mas não me lembro de ter encontrado depoimento bacana como o que ouvi semana passada, de um colega de trabalho. Achei válido colocá-lo aqui.

Quando ele me contava que era do sertão de Pernambuco, depois de eu ter comentado que queria conhecer a região por ser terra do meu avô paterno, perguntei-lhe qual o impacto do Bolsa Família na região. Perguntei se era verdade que as pessoas não queriam mais deixar sua terra e vir pra São Paulo, se a vida realmente tinha melhorado.

O meu colega aparenta ter uns 50 anos, é alto, robusto, usa óculos. Tem um aspecto muito sério, é aquele tipo com quem dá até certo medo puxar conversa. Mas, no momento em que lhe fiz a pergunta, seus olhos se encheram d´água.

“O Bolsa Família mudou tudo lá. Só critica o Bolsa Família quem nunca passou fome. Quando eu era criança, chegava da escola e, muitas vezes, tinha apenas feijão e rapadura para comer, quando tinha. O Bolsa Família não é esmola como muitos dizem. Para quem passa fome, não há esmola”, contou.

Os recursos do governo federal, que variam de R$ 32 a R$ 232 por família, movimentaram a economia local.

“Eu vim pra cá há mais de 30 anos e fiquei 12 sem voltar para casa. Eu não conseguia ver minha família passando necessidade. Hoje, quando eu vou pra lá, tem tudo pra mim. Tem até carro para eu ir do sertão até a cidade. Tem fartura de comida.”

Mesmo sem ser um militante do PT – aliás, o colega em questão trabalha para um vereador de outro partido – Marcelo (como vou chamá-lo) defende o ex-presidente Lula. “Já avisei o meu vereador que não pode falar mal do Lula. Acho que o PT também roubou, mas o Lula distribuiu riqueza.”

Do alto de sua sabedoria, me contou ainda que há décadas, encontrar água no sertão era uma tarefa difícil, árdua e cruel. O financiamento público dos oitos anos do governo Lula permitiu uma vida mais digna a muitos nordestinos. “Ele financiou a construção do poço artesiano para o pobre. Agora, as pessoas têm água em seu quintal.”

Bolsa Família
Programa de transferência de renda com condicionalidades, beneficia atualmente cerca de 12 milhões de famílias brasileiras em situação de pobreza e extrema pobreza.

A depender da renda familiar por pessoa (limitada a R$ 140), do número e da idade dos filhos, o valor do benefício recebido pela família pode variar entre R$ 32 a R$ 242.

O 4° Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio aponta queda da pobreza extrema de 12% em 2003 para 4,8% em 2008.

Valores
Vamos tomar como base uma família com filhos que receba o valor máximo do Bolsa Família, R$ 232. Imagine uma família sem renda nenhuma, no extremo nordeste do País. Sem água. Sem alimentação. Sem vizinhos para quem pedir alguma coisa para comer. E, se houver vizinhos, eles enfrentam as mesmas dificuldades.

Agora, esta família pode contar com R$ 232 para se alimentar. E vamos supor que estes recursos sejam tudo o que ela tem. Com a alimentação em dia, as crianças aproveitam a escola, conseguem estudar, não sentem fome. Sabe o que a família consegue comprar com cerca de R$ 232? Segue uma lista, com base em preços de mercado – de São Paulo, uma das cidades mais caras do mundo para se viver.

– 5 pacotes de arroz de 5 kg;
– 3 pacotes de feijão de 1kg;
– 3 pacotes de açúcar de 1kg;
– 1 pacote de sal;
– 3 litros de óleo;
– 4 pacotes de macarrão;
– 4 caixas de molho de tomate;
– 2 pacotes de café de 500 gramas;
– 1 pacote de farinho de trigo;
– 1 pacote de farinha de milho;
– 6 pacotes de leite em pó de 1kg;
– 1 pote de achocolatado em pó;
– 2 garrafas de refrigerante de 2L;
– 1 pote de margarina;
– 1 bandeja de danone;
– 1 vinagre;
– 4 latas de sardinha;
– 2 pacotes de papel higiênico (com 8 rolos);
– 1 recipiente de Cândida;
– 1 recipiente de desinfetante;
– 2 caixas de sabão em pó;
– 1 pacote de esponja de aço;
– 1 pacote de sabão em pedra;

Esta é uma lista montada muito aleatoriamente. Vocês conseguiram notar como com estes recursos uma família não passa fome? Ela continua em dificuldades, caso não conte com nenhuma outra renda. Não há hortaliças e frutas nesta compra, mas fome…esta inimiga não existirá mais.

ÉRICA FRANÇA

O que poderia ser feito com o seu dinheiro que foi desviado

Você tem ideia do quanto poderia ser feito com o dinheiro que escorre pelos ralos da corrupção? O Brasil é eternamente o País do Futuro. Mas com a situação atual, de economia estável, atração de investimentos e iminência de grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, o Brasil é o País do presente. E, na verdade, com toda sua riqueza, acredito que sempre o tenha sido.

Então qual a razão para continuarmos no grupo dos países subdesenvolvidos, de terceiro mundo ou emergentes, como queira chamar? Há uma resposta que alguns diriam simplista a esta pergunta. Mas, a meu ver, são dois os problemas do País: falta de prioridade em educação e corrupção (ou a falta de punição a esta prática).

Primeiramente, não haverá avanços consistentes se não houver investimentos maciços em educação, se este setor não for prioridade para todos os governos – municipais, estaduais e federal. Além disso, se não houver punição para a corrupção no nosso País, pouca coisa irá mudar.

Os recursos públicos, provenientes das riquezas do país, de pagamentos de impostos por pessoas físicas e empresas, escorrem como areia pelos dedos da corrupção.

Não conhecemos todos os escândalos e esquemas. Temos notícia daqueles que interessam aos donos da grande mídia, aos detentores do oligopólio da comunicação no País. Mas provavelmente a máquina da corrupção move mais milhões do que supõe nossa vã fonte de informação.

Para se ter uma pequenina ideia do quanto nós cidadãos perdemos com o dinheiro que se esvai nos canos da corrupção para o esgoto da imoralidade, segue um apanhado de investimentos dos governos estadual e federal, citados em seus respectivos sites (www.sp.gov.br, www.brasil.gov.br). O número de obras e programas é grande, mas cabe dentro da estimativa de valor desviado pelo esquema de corrupção do Ministério dos Transportes, segundo auditoria do Controle Geral da União (CGU).

Com os R$ 682 milhões que se esvaíram dos cofres por conta do esquema de fraude no Ministério dos Transportes, poderíamos ter investido em:

Cultura
– Reforma do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo – R$ 7,6 milhões (troca de instalações elétricas, hidráulicas e de esgoto e reforma de duas salas de espetáculos);

– Construção de unidade da Fábrica da Cultura, no Itaim Paulista – R$ 12, 5 milhões (6,8 mil metros quadrados, atenderá em média 8 mil jovens por mês, com cursos e workshops de artes plásticas, teatro, circo, dança, música, cinema e história em quadrinhos).

Habitação
– Construção de 4.828 unidades habitacionais em São Bernardo do Campo e urbanização de mais 1.763 domicílios na região. R$ 120 milhões.

Saúde
– Pesquisa, desenvolvimento e inovação na Saúde. R$ 100 milhões ao ano (foi o investimento feito nos últimos 4 anos).

Infra-estrutura
– Coleta e tratamento de esgoto. Construção de 6 reservatórios para armazenar 9 mil litros de água tratada, mais 3 estações de bombeamento, mais 2 estações elevatórias no município de São José dos Campos. R$ 16,8 milhões.

Educação
– Construção de 3 novos blocos na Faculdade de Tecnologia de Jales. R$ 5 milhões.
– Construção de uma Escola Técnica do Estado (Etec) no município de Santa Fé do Sul. R$ 1,5 milhão.

Infra-estrutura para Copa do Mundo
– Construção de novo estádio em Natal, para sediar a Copa. R$ 396,5 milhões.

Fazendo tudo isso, ainda nos sobrariam R$ 22,1 milhões, que poderiam ser utilizados em mais moradias populares, mais escolas técnicas, mais investimentos em Saúde e Pesquisa, mais infra-estrutura para os municípios ou segurança.

Há corrupção em todo lugar do mundo, mas no Brasil ela tem se tornado institucionalizada. Quando há rigor, a pena para a corrupção é a demissão ou afastamento do cargo. Não basta. E também não basta sabermos de tudo isso e ficarmos apenas com críticas vazias e conversas de bar. É preciso informação, conscientização e ação.

Já sabemos o que é preciso para termos mais escolas, segurança, saúde de melhor qualidade. Estamos dispostos a brigar por isso e exigir mudanças?

ÉRICA FRANÇA