Mídia amplia faturamento e demissões

Mesmo com o aumento do volume publicitário, empresas do setor seguem realizando cortes de gastos. Profissionais de jornalismo são maiores vítimas

Empresas de jornalismo lucram cada vez mais, mas ampliasm demissão de jornalistas

Empresas de jornalismo lucram cada vez mais, mas ampliasm demissão de jornalistas

As empresas de comunicação do Brasil seguem uma curiosa tendência: quanto maior o faturamento, maior o número de demissões. É que se conclui ao analisar os números referentes ao setor em 2012.

Uma pesquisa realizada pelo Monitor Evolution, do Ibope Media, aponta que os investimentos publicitários cresceram 7% em 2012, na comparação com o ano anterior, atingindo R$ 94,9 bilhões.

De acordo com Dora Câmara, diretora regional Brasil do Ibope Media, o setor vive um momento de crescimento e consolidação. “O aumento registrado em 2012 ficou de acordo com a economia do país”.

Ainda de acordo com o levantamento, a TV aberta é a mídia que recebe o maior volume de publicidade. Apesar do crescimento de 11% nos investimentos, que passam de R$ 46,3 bilhões em 2011 para R$ 51,2 bilhões, a participação do meio é praticamente a mesma, passou de 53% para 54%. O meio internet, que também aumentou sua participação chegando a 7%, teve um crescimento de 21%, passando de R$ 5,3 bilhões para R$ 6,5 bilhões.

Passaralhos

Enquanto isso, o que se vê nas redações é um clima de terror. Tudo graças a um mítico animal, o passaralho.

Passaralho é uma palavra do jargão jornalístico que designa demissões em massa nas redações. A origem da expressão é imprecisa e uma série de versões têm sido publicadas, algumas com teor burlesco e com um humor ácido.

Infelizmente, não há espaço para o humor nas redações. Um levantamento do site Comunique-se aponta que mais de 1.200 jornalistas foram demitidos em 2012. O número foi engordado pelas 450 demissões da Rede TV e as 70 da Record, além do fechamento do Jornal da Tarde, pertencente ao Grupo Estado.

No entanto, todos os grandes veículos de comunicação realizaram demissões no ano passado. A maior parte dos veículos afirma que os passaralhos fazem parte de “reestruturações”, que incluem o surgimento de veículos online, como portais de notícias e sites de serviços. O problema é que esses novos veículos são criados com equipes extremamente enxutas. A tese da “reestruturação” é derrubada ao se constatar que não há uma migração para os meios online, apenas um número de contratações muito inferior às demissões.

Outro fator que mostra a crise vivida pelo profissional de comunicação é a precariedade dos empregos. Em São Paulo, os profissionais com registro na Carteira de Trabalho, pelo regime da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), são raros. A maioria absoluta das empresas de comunicação monta suas equipes com profissionais assalariados travestidos de “prestadores de serviços”. Estes atuam como pessoas jurídicas e emitem notas fiscais para receber pelo trabalho. A manobra representa, na prática, a sonegação de milhões de reais em encargos trabalhistas. Os jornalistas, por sua vez, perdem direito a benefícios como o 13º salário.

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Morre um gigante do jornalismo

Joelmir Beting morreu hoje, aos 75 anos – Foto: Reprodução/Facebook

Morreu na madrugada desta quinta-feira (29/11) o jornalista Joelmir Beting, aos 75 anos. No último domingo, ele sofreu um AVE (acidente vascular encefálico) no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde estava internado desde o último dia 22.

Melhor e mais conhecido analista econômico do país, Joelmir Beting é mais um dos grandes do jornalismo que se vai. Sua principal marca foi utilizar uma linguagem limpa e clara para falar dos anuviados caminhos da economia brasileira e mundial. Aboliu o terrível economês e passou a usar frases rápidas, simples e certeiras. Quando preciso, apelava para a rima e jogos de palavras.

Antes de se consagrar como jornalista econômico, enveredou-se pela crônica esportiva, onde acompanhou grandes momentos do futebol brasileiro e até protagonizou alguns causos, como o que originou a expressão “Gol de Placa”. Na ocasião, Pelé havia feito um de seus mais belos gols, driblando quase todo o time do Fluminense em pleno Maracanã, nos anos 60. Joelmir idealizou a confecção de uma placa, a ser colocada no estádio, para lembrar o feito. Tempos mais tardes, os cronistas passaram a chamar de Gol de Placa todo gol semelhante àquele de Pelé.

Palmeirense fanático, deixou o legado do jornalismo e do amor ao futebol à sua família, em que se destaca o também jornalista Mauro Beting, outro apreciador dos jogos de palavras.

Fica aqui uma rápida e singela homenagem a não somente um grande jornalista, mas a um profissional honesto e dedicado, preocupado em informar seu público de forma clara. O que, convenhamos, está em falta no jornalismo atual.

Brasil avança sobre mercado imobiliário dos EUA

Atraídos pelos preços em baixa, brasileiros compram cada vez mais imóveis em Nova York. Na Flórida, já estão entre os maiores compradores estrangeiros

Imóveis luxuosos são oferecidos a preços baixos em Miami, Orlando e Nova York

O mercado imobiliário norte-americano vive um novo quadro desde que explodiu a crise econômica em 2008. O setor, um dos mais afetados pela quebradeira dos bancos nos EUA e Europa, vem se mantendo aquecido graças à procura cada vez maior de estrangeiros por imóveis nas grandes cidades do país. Os brasileiros estão entre os mais ávidos consumidores.

Uma pesquisa divulgada em junho deste ano, pela Associação Nacional dos Corretores de Imóveis dos Estados Unidos (NAR, na sigla em inglês), apontou que os compradores estrangeiros gastaram US$ 82,5 bilhões entre março de 2011 e março deste ano. O valor representa ou 8,9% do total (US$ 928 bilhões). No período anterior, as vendas internacionais atingiram US$ 66,4 bilhões.

Com 3% das vendas internacionais, os brasileiros já estão na sexta colocação deste ranking, atrás somente dos compradores do Canadá, China, México, Índia e Reino Unido.

O estado da Flórida concentra a atenção dos brasileiros que se aventuram no mercado imobiliário norte-americano. Eles foram responsáveis por 12% de todos os imóveis vendidos a estrangeiros em Miami, no ano passado, sendo suplantado apenas pelos venezuelanos (17%). No entanto, os especialistas já apontam que o consumidor brasileiro ocupará a ponta do ranking no final deste ano.

Nova York aparece em segundo lugar quando o assunto é comprar imóveis. A cidade vem recebendo uma procura incessante e luxuosos apartamentos em bairros elegantes de Manhattan já começam a ser arrematados por brasileiros.

PREÇOS EM CONTA

A crise econômica de 2008 nos Estados Unidos culminou em uma onda de desemprego e de despejo em massa de trabalhadores sem condições de quitar suas caríssimas hipotecas. Pouco tempo foi necessário, a partir de então, para que milhares de imóveis em todo o país ficassem abandonados. A solução foi a queda contínua dos preços, que atraiu os compradores estrangeiros.

Mesmo com a ligeira melhora da situação econômica, os preços continuam baixos, inclusive em comparação com os imóveis no Brasil. O metro quadrado de um imóvel em uma área nobre de Miami custa em média US$ 5 mil. No Brasil, não é possível encontrar um equivalente a menos de US$ 10 mil o m2, enquanto no Rio de Janeiro chega a US$ 15 mil.

Os altíssimos juros brasileiros também são um ponto negativo da comparação. Enquanto nos EUA ele está em torno de 5,5% ao ano, por aqui o índice chega a 7%.

O corretor Frederico Ziotto, carioca que mora em Nova York há mais de 25 anos, aponta a redução da taxa de câmbio como um importante fator a impulsionar os brasileiros. “A compra de um apartamento tornou-se possível hoje graças ao fortalecimento do Real”.

Ele diz que a procura de imóveis na Grande Maçã é motivada sobretudo pela promessa de vida em uma cidade cosmopolita e bem estruturada. “Apesar de ser um investimento seguro, a procura é pela qualidade de vida que a cidade oferece – seguranca, cultura, infra-estrutura e acesso ao que existe de melhor em quase todos os setores”, afirma. “No Brasil, em muitos casos o dinheiro não proporciona todos esses benefícios”, completa.

NEGÓCIOS NO BRASIL

Corretoras criam sites em português para atrair o comprador brasileiro

A procura de brasileiros por casas, apartamentos e mansões é tão grande que várias companhias norte-americanas vieram ao Brasil em busca de clientes. Em agosto, a consultoria imobiliária Elite International Realty realizou um encontro de negócios em São Paulo e no Rio de Janeiro e obteve US$ 15 milhões em vendas. Animados com o resultado, anunciaram eventos trimestrais.

“Com os preços dos imóveis em alta no Brasil, o mercado imobiliário americano acaba se tornando uma boa oportunidade de negócio”, comenta o diretor presidente da Elite, o brasileiro Leo Ickowicz.

Ele diz que a demanda é tão grande que o mercado imobiliário norte-americano vem alterando sua forma de trabalho para se adaptar ao gosto do brasileiro. “As incorporadoras estão adotando o modelo “um apartamento por andar”, incomum nos Estados Unidos”.

Uma rápida pesquisa na internet possibilita encontrar todo tipo de oferta. Empresas norte-americanas sediadas no Brasil oferecem serviços especiais de atendimento ao cliente. Outras, ainda sem colocar os pés em território tupiniquim, colocam no ar detalhados sites em português. E, claro, brasileiros que trabalham nos Estados Unidos servem como trunfo para várias corretoras e incorporadoras.

COMO COMPRAR

Além do fortalecimento do real e a queda no preços dos imóveis, outro fator que anima os brasileiros a sair à caça de casas e apartamentos é a liberal legislação norte-americana, que facilita o fechamento de negócios. “Não há limites para alguém de outro país comprar casas nos Estados Unidos”, explica Leo Ickowicz.

É possível para um estrangeiro financiar imóveis nos EUA. Os empréstimos usualmente chegam a 70% do valor do imóvel, com prazos de até 30 anos e taxas fixas ou variáveis.

Os trâmites burocráticos são parecidos com os enfrentados no Brasil. É necessário pagar pela escritura e pela transferência do documento do imóvel. As despesas também são bem parecidas: condomínio, taxa de manutenção, seguro e um tributo equivalente ao IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano).

A maior parte dos imóveis são de alto padrão e o valor máximo pode chegar a US$ 10 milhões. No entanto, há alguns com preço extremamente tentador. Um exemplo é uma casa, em um luxuoso condomínio, localizado a apenas alguns quarteirões da Disney, em Orlando. Com três quartos e toda mobiliada, ela esta à venda por módicos US$ 140 mil. Em São Paulo, por exemplo, é quase impossível encontrar um imóvel bem localizado a este preço, mesmo que esteja vazio e tenha apenas dois dormitórios.

Brasileiros devem aumentar em 14% gastos com brinquedos

Consumo irá superar marca de R$ 6 bilhões em 2012, segundo pesquisa do Ibope. Somente no Dia das Crianças, vendas subiram 7,7%

Venda de brinquedos depende cada vez menos das datas especiais. Foto: Agência Brasil

O aumento do consumo da população brasileira atinge não apenas os itens básicos de consumo – como alimentação, vestuário e gastos com saúde e educação – mas ganham corpo também nos setores de lazer e entretenimento. Um dos reflexos deste incremento está no aumento das vendas de brinquedos: dados do Pyxis Consumo, ferramenta de dimensionamento de mercado do Ibope Inteligência, mostram que os brasileiros devem gastar R$ 6,02 bilhões até o final do ano, um aumento de 14% em comparação com 2011.

O maior potencial de consumo é da classe B, que corresponde a 24,45% dos domicílios e deve responder por quase metade desses gastos (46,50%). No entanto, o crescimento este ano é embalado pelo aumento no poder aquisitivo da classe C, que responderá por 34,64% do total.

O Sudeste será responsável pela maior parte do consumo (53,29%), com estimativa de gasto de R$ 42,53 per capita ao ano. A segunda região do País que mais compra estes produtos é a região Sul, responsável por 17,33% do consumo, com gasto per capita maior do que no Sudeste, que é de R$ 44,50. O menor consumo está na região Norte, com apenas 5,80% do total e média de R$ 29,21 por pessoa.

Na análise por classe e por região do País, a classe B continua na frente em todas as regiões. No Sudeste, ela será responsável por gastos de R$ 1,65 bilhão. A classe C, também do Sudeste, aparece na sequência, com consumo estimado em R$ 1,02 bilhão. O menor gasto deve ser dos moradores do Centro-Oeste, pertencentes às classes D e E, de R$ 22,69 milhões.

DIA DAS CRIANÇAS

O otimismo do setor se consolida com o crescimento registrado na semana do Dia das Crianças. Segundo o Indicador Serasa Experian de Atividade do Comércio, as vendas realizadas entre os dias 5 e 11 de outubro cresceram 7,7% na comparação com igual período de 2011. No ano passado, o crescimento havia sido de 5,8% em relação a 2010.

As vendas realizadas no final de semana que antecedeu o Dia das Crianças tiveram uma elevação de 4,2% ante o final de semana equivalente de 2011 (07 a 09 de outubro).

O que chama a atenção, na análise destes dados, é ver que a data mais importante para a venda de brinquedos – o Dia das Crianças – registrou um crescimento nas vendas inferior à projeção para todo o ano. Desta forma, é possível concluir que as vendas de brinquedos apresentam resultados positivos durante todo o ano e dependem um pouco menos destas datas especiais.

“Bomba-relógio” ameaça bancos europeus

Instituições acumulam € 1,5 trilhão em créditos de liquidação duvidosa, que podem se tornar um problema grave a médio prazo

Ajuda do BCE desestimulou bancos a venderem seus créditos de liquidação duvidosa

O vendaval que tomou conta do mercado financeiro norte-americano em 2008, estopim da gigantesca crise econômica internacional, pode se repetir no Velho Mundo a médio prazo, graças às arriscadas estratégias dos bancos locais. Segundo a Pesquisa Global de Vendas de Dívidas 2012, elaborada pela KPMG Internacional, as instituições europeias acumulam € 1,5 trilhão em créditos de liquidação duvidosa, ou NPLs (Non-Performing Loans, na sigla em inglês).

Estes NPLs são, a rigor, operações financeiras de risco, com alta probabilidade de inadimplência ou que envolvem empresas em estado pré-falimentar. Em tese, os bancos deveriam buscar o quanto antes a negociação destes créditos, pois o acúmulo abundante pode causar uma quebradeira geral no sistema, a exemplo do que aconteceu nos Estados Unidos em 2008.

No entanto, desestimulados pelo baixo valor dos NPLs, os bancos tentam adiar ao máximo a venda, esperando momentos em que eles possam valer mais. E o fator que mais tem proporcionado o adiamento destas operações foi o aporte de mais de € 1 trilhão, em operações de refinanciamento de longo prazo, promovido pelo BCE (Banco Central Europeu) entre dezembro de 2011 e fevereiro deste ano.

BOMBA RELÓGIO

Nick Colman, diretor no Grupo de Soluções de Carteira na KMPG na Alemanha, endossa a tese. “Há uma visão geral de que o dinheiro barato do Banco Central Europeu reduziu a urgência na venda de ativos no curto prazo”.

Segundo Colman, têm sido registrados atrasos nas alienações de carteiras de hipotecas residenciais e de empréstimos de financiamento de projetos. “Também observamos muita atividade nas carteiras estressadas e de NPLs, que são caras de um ponto de vista de capital, tais como as relacionadas a imóveis comerciais, onde a fuga de capital é uma preocupação principal para o banco.”

O FMI (Fundo Monetário Internacional) indica que os bancos europeus precisam encolher os seus balanços em US$ 2,6 trilhões (€ 2,01 trilhões), 75% dos quais provavelmente virão da venda de ativos. Contudo, os recursos com prazo de três anos para pagamento do BCE têm sido usados, principalmente, para reforçar os balanços dos bancos europeus. Com números mais favoráveis, cai a pressão para vender os créditos de liquidação duvidosa.

ALÍVIO

Uma forma de desarmar esta bomba relógio seria, basicamente, se livrar deste montante de crédito potencialmente perigoso. Embora as operações não venham sendo realizadas, a expectativa é que o quadro mude no futuro.

“A pesquisa também levantou informações de compradores e vendedores no mercado global de vendas de dívidas sobre as suas atividades planejadas para o próximo ano”, explica Salvatore Milanese, sócio-líder da área de Retructuring da KPMG no Brasil. De acordo com a apuração, 56% dos compradores e vendedores esperam que os créditos de liquidação duvidosa (NPLs) de consumidores sejam a categoria de dívida mais ativamente negociada nos próximos 12 meses.

“O cenário de bancos vendendo carteiras muito maiores, de vários bilhões de euros, em operações de crédito de liquidação duvidosa apresentadas em pacotes incluindo plataformas de servicing e facilitadas com contratos de fluxo a termo se tornará cada vez mais comum”, explica Jonathan Hunt, diretor associado do Grupo de Soluções de Carteira da KPMG. “Enquanto a dívida do consumidor tem sido tradicionalmente a mais fácil de ser vendida, os bancos buscam cada vez mais vender categorias diversas de ativos”.

No entanto, os prognósticos não fazem alusão a um pequeno detalhe: se a oferta de NPLs crescer assustadoramente, os valores tenderão a cair na mesma proporção. O que os bancos farão para evitar prejuízos?

OAB e Defensoria Pública em pé de guerra

O que você faria se fosse acusado de um crime, ou se tornasse alvo de um processo? Procuraria um advogado para lhe defender, certo? Mas e se você não tivesse condições financeiras para isso? A resposta para esta pergunta, que até pode parecer simples, tem se tornado cada vez mais complexa, especialmente no Estado de São Paulo. Tudo por causa de uma intensa batalha entre a Defensoria Pública e a seção paulista da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que envolve até mesmo o governador Geraldo Alckmin. Em jogo: um convênio de quase R$ 280 milhões anuais.

A Defensoria Pública é um organismo autônomo, que tem como função oferecer assistência jurídica gratuita para os cidadãos que não têm condições de obter um advogado. A existência e a regulamentação deste órgão estão descritos da Constituição de 1988, mas demorou a se institucionalizar no Brasil. Em São Paulo, por exemplo, ele foi criado apenas em 2006.

Um órgão de tal importância, evidentemente, exige tempo e muito trabalho, além de investimentos vultosos, para que possa funcionar a contento. Hoje, ela sobre com uma estrutura incipiente, incapaz de atender todo o rico e exigente Estado.

A solução encontrada a curto prazo foi contratar advogados credenciados pela OAB-SP para realizar os serviços onde a defensoria não consegue chegar, seja pela falta de postos, seja pelo excesso de trabalho. Pois é exatamente neste este o cerne da discussão.

BRIGA PELOS RECURSOS
A Defensoria de São Paulo faz o pagamento aos advogados mediante a comprovação de que atuaram nos casos solicitados. Os profissionais enviam uma média mensal de 50 mil pedidos de honorários.

O volume de recursos movimentado neste esforço para atender à população carente não é desprezível. São cerca de R$ 23 milhões mensais – ou quase R$ 280 milhões por ano, em média.

Os desentendimentos começaram a surgir, em 2008, por causa da discordância em relação aos valores praticados. A OAB propôs um reajuste na tabela dos honorários, mas a Defensoria não acatou, alegando que o índice sugerido estava acima da inflação medida pelo IPC, da Fipe.

Seguiu-se a partir de então uma briga que foi parar nos tribunais. A Defensoria Pública alega que tem direito a firmar convênio com outros órgãos, além da OAB, que obviamente discorda.

DECISÃO JUDICIAL
Ainda em 2008, a OAB obteve uma vitória na Justiça. Uma liminar proferida em julho, pela 13ª Vara Cível Federal, manteve a vigência compulsória do convênio.

Esta decisão teve valor até o dia 19 de dezembro, quando a Justiça Federal revogou a liminar, que na prática permite que a Defensoria firme convênio com outras entidades ou contrate diretamente os advogados. Dois dias depois, a OAB-SP e a Defensoria paulista renovaram o convênio por um prazo de 90 dias.

RÉPRESÁLIA DA OAB
Enquanto o convênio provisório está em vigor, a OAB realiza uma manobra agressiva: retirar da Defensoria Pública o poder de nomear advogados para atender ao cidadão pobre. A Ordem quer apoio para que esta atribuição seja concedida diretamente ao governo estadual, por meio da Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania.

A ação política para que esta transferência aconteça está a todo vapor. Um projeto foi encaminhado à Assembleia Legislativa, transferindo os poderes da Defensoria para a Secretaria de Justiça. A PLC 65/2011 é de autoria do deputado Campos Machado, presidente estadual e secretário-geral nacional do PTB. Mesmo partido, aliás, do presidente da OAB-SP, Luiz Flávio Borges D’Urso, que pretende se lançar candidato à prefeitura de São Paulo.

O projeto recebeu parecer favorável das comissões de Constituição e Justiça e Finanças e Orçamento. O texto está pronto para entrar na Ordem do Dia e ser votado em plenário.

O caminho para a aprovação vem sendo solidamente pavimentado. Câmaras Municipais de todo o Estado têm enviado, ao Palácio dos Bandeirantes, moções de apoio à proposta. A decisão final caberá justamente ao governador Geraldo Alckmin, que tem o poder de sanção ou veto caso a PLC 65/2011 seja vitoriosa.

“Só critica o Bolsa Família quem nunca passou fome”, diz nordestino

Muito se falou do Bolsa Família durante todo o governo Lula. Opiniões diversas, de que o programa distribuía renda, ou de que era assistencialista. Fora as opiniões direitistas de que o programa “sustentava vagabundo”. Desculpe-me, detesto os termos, mas era o que se via e ouvia.

Li matérias bacanas sobre o programa neste tempo todo, claro. Mas não me lembro de ter encontrado depoimento bacana como o que ouvi semana passada, de um colega de trabalho. Achei válido colocá-lo aqui.

Quando ele me contava que era do sertão de Pernambuco, depois de eu ter comentado que queria conhecer a região por ser terra do meu avô paterno, perguntei-lhe qual o impacto do Bolsa Família na região. Perguntei se era verdade que as pessoas não queriam mais deixar sua terra e vir pra São Paulo, se a vida realmente tinha melhorado.

O meu colega aparenta ter uns 50 anos, é alto, robusto, usa óculos. Tem um aspecto muito sério, é aquele tipo com quem dá até certo medo puxar conversa. Mas, no momento em que lhe fiz a pergunta, seus olhos se encheram d´água.

“O Bolsa Família mudou tudo lá. Só critica o Bolsa Família quem nunca passou fome. Quando eu era criança, chegava da escola e, muitas vezes, tinha apenas feijão e rapadura para comer, quando tinha. O Bolsa Família não é esmola como muitos dizem. Para quem passa fome, não há esmola”, contou.

Os recursos do governo federal, que variam de R$ 32 a R$ 232 por família, movimentaram a economia local.

“Eu vim pra cá há mais de 30 anos e fiquei 12 sem voltar para casa. Eu não conseguia ver minha família passando necessidade. Hoje, quando eu vou pra lá, tem tudo pra mim. Tem até carro para eu ir do sertão até a cidade. Tem fartura de comida.”

Mesmo sem ser um militante do PT – aliás, o colega em questão trabalha para um vereador de outro partido – Marcelo (como vou chamá-lo) defende o ex-presidente Lula. “Já avisei o meu vereador que não pode falar mal do Lula. Acho que o PT também roubou, mas o Lula distribuiu riqueza.”

Do alto de sua sabedoria, me contou ainda que há décadas, encontrar água no sertão era uma tarefa difícil, árdua e cruel. O financiamento público dos oitos anos do governo Lula permitiu uma vida mais digna a muitos nordestinos. “Ele financiou a construção do poço artesiano para o pobre. Agora, as pessoas têm água em seu quintal.”

Bolsa Família
Programa de transferência de renda com condicionalidades, beneficia atualmente cerca de 12 milhões de famílias brasileiras em situação de pobreza e extrema pobreza.

A depender da renda familiar por pessoa (limitada a R$ 140), do número e da idade dos filhos, o valor do benefício recebido pela família pode variar entre R$ 32 a R$ 242.

O 4° Relatório Nacional de Acompanhamento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio aponta queda da pobreza extrema de 12% em 2003 para 4,8% em 2008.

Valores
Vamos tomar como base uma família com filhos que receba o valor máximo do Bolsa Família, R$ 232. Imagine uma família sem renda nenhuma, no extremo nordeste do País. Sem água. Sem alimentação. Sem vizinhos para quem pedir alguma coisa para comer. E, se houver vizinhos, eles enfrentam as mesmas dificuldades.

Agora, esta família pode contar com R$ 232 para se alimentar. E vamos supor que estes recursos sejam tudo o que ela tem. Com a alimentação em dia, as crianças aproveitam a escola, conseguem estudar, não sentem fome. Sabe o que a família consegue comprar com cerca de R$ 232? Segue uma lista, com base em preços de mercado – de São Paulo, uma das cidades mais caras do mundo para se viver.

– 5 pacotes de arroz de 5 kg;
– 3 pacotes de feijão de 1kg;
– 3 pacotes de açúcar de 1kg;
– 1 pacote de sal;
– 3 litros de óleo;
– 4 pacotes de macarrão;
– 4 caixas de molho de tomate;
– 2 pacotes de café de 500 gramas;
– 1 pacote de farinho de trigo;
– 1 pacote de farinha de milho;
– 6 pacotes de leite em pó de 1kg;
– 1 pote de achocolatado em pó;
– 2 garrafas de refrigerante de 2L;
– 1 pote de margarina;
– 1 bandeja de danone;
– 1 vinagre;
– 4 latas de sardinha;
– 2 pacotes de papel higiênico (com 8 rolos);
– 1 recipiente de Cândida;
– 1 recipiente de desinfetante;
– 2 caixas de sabão em pó;
– 1 pacote de esponja de aço;
– 1 pacote de sabão em pedra;

Esta é uma lista montada muito aleatoriamente. Vocês conseguiram notar como com estes recursos uma família não passa fome? Ela continua em dificuldades, caso não conte com nenhuma outra renda. Não há hortaliças e frutas nesta compra, mas fome…esta inimiga não existirá mais.

ÉRICA FRANÇA

O que poderia ser feito com o seu dinheiro que foi desviado

Você tem ideia do quanto poderia ser feito com o dinheiro que escorre pelos ralos da corrupção? O Brasil é eternamente o País do Futuro. Mas com a situação atual, de economia estável, atração de investimentos e iminência de grandes eventos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, o Brasil é o País do presente. E, na verdade, com toda sua riqueza, acredito que sempre o tenha sido.

Então qual a razão para continuarmos no grupo dos países subdesenvolvidos, de terceiro mundo ou emergentes, como queira chamar? Há uma resposta que alguns diriam simplista a esta pergunta. Mas, a meu ver, são dois os problemas do País: falta de prioridade em educação e corrupção (ou a falta de punição a esta prática).

Primeiramente, não haverá avanços consistentes se não houver investimentos maciços em educação, se este setor não for prioridade para todos os governos – municipais, estaduais e federal. Além disso, se não houver punição para a corrupção no nosso País, pouca coisa irá mudar.

Os recursos públicos, provenientes das riquezas do país, de pagamentos de impostos por pessoas físicas e empresas, escorrem como areia pelos dedos da corrupção.

Não conhecemos todos os escândalos e esquemas. Temos notícia daqueles que interessam aos donos da grande mídia, aos detentores do oligopólio da comunicação no País. Mas provavelmente a máquina da corrupção move mais milhões do que supõe nossa vã fonte de informação.

Para se ter uma pequenina ideia do quanto nós cidadãos perdemos com o dinheiro que se esvai nos canos da corrupção para o esgoto da imoralidade, segue um apanhado de investimentos dos governos estadual e federal, citados em seus respectivos sites (www.sp.gov.br, www.brasil.gov.br). O número de obras e programas é grande, mas cabe dentro da estimativa de valor desviado pelo esquema de corrupção do Ministério dos Transportes, segundo auditoria do Controle Geral da União (CGU).

Com os R$ 682 milhões que se esvaíram dos cofres por conta do esquema de fraude no Ministério dos Transportes, poderíamos ter investido em:

Cultura
– Reforma do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo – R$ 7,6 milhões (troca de instalações elétricas, hidráulicas e de esgoto e reforma de duas salas de espetáculos);

– Construção de unidade da Fábrica da Cultura, no Itaim Paulista – R$ 12, 5 milhões (6,8 mil metros quadrados, atenderá em média 8 mil jovens por mês, com cursos e workshops de artes plásticas, teatro, circo, dança, música, cinema e história em quadrinhos).

Habitação
– Construção de 4.828 unidades habitacionais em São Bernardo do Campo e urbanização de mais 1.763 domicílios na região. R$ 120 milhões.

Saúde
– Pesquisa, desenvolvimento e inovação na Saúde. R$ 100 milhões ao ano (foi o investimento feito nos últimos 4 anos).

Infra-estrutura
– Coleta e tratamento de esgoto. Construção de 6 reservatórios para armazenar 9 mil litros de água tratada, mais 3 estações de bombeamento, mais 2 estações elevatórias no município de São José dos Campos. R$ 16,8 milhões.

Educação
– Construção de 3 novos blocos na Faculdade de Tecnologia de Jales. R$ 5 milhões.
– Construção de uma Escola Técnica do Estado (Etec) no município de Santa Fé do Sul. R$ 1,5 milhão.

Infra-estrutura para Copa do Mundo
– Construção de novo estádio em Natal, para sediar a Copa. R$ 396,5 milhões.

Fazendo tudo isso, ainda nos sobrariam R$ 22,1 milhões, que poderiam ser utilizados em mais moradias populares, mais escolas técnicas, mais investimentos em Saúde e Pesquisa, mais infra-estrutura para os municípios ou segurança.

Há corrupção em todo lugar do mundo, mas no Brasil ela tem se tornado institucionalizada. Quando há rigor, a pena para a corrupção é a demissão ou afastamento do cargo. Não basta. E também não basta sabermos de tudo isso e ficarmos apenas com críticas vazias e conversas de bar. É preciso informação, conscientização e ação.

Já sabemos o que é preciso para termos mais escolas, segurança, saúde de melhor qualidade. Estamos dispostos a brigar por isso e exigir mudanças?

ÉRICA FRANÇA